Archive for março \31\UTC 2012

Por que as empresas surgem?

março 31, 2012

Esta parece ser uma pergunta trivial.  Mas, de fato, qual é a razão para uma empresa surgir? É uma “vontade” de um empreendedor, seja por necessidade ou por oportunidade, ou há algo mais fundamental que explica sua origem?

Eis aí o assunto da nova newsletter da Creativante, que vai ao ar nesta segunda-feira, 02/04/2012!

Aguardem!

Perspectivas Econômicas do TOGAF- The Open Group Architecture Framework

março 26, 2012

Já está no ar a nova newsletter da Creativante. Seu título é “Perspectivas Econômicas do TOGAF- The Open Group Architecture Framework“, que você pode acessar aqui, ou aqui, no formato pdf.

Trata-se é de uma metodologia e um framework (abstração) comprovados de Arquitetura Empresarial, e usados pelas organizações líderes do mundo para melhorar a eficiência dos seus negócios.

Bem-estar e húbris (André Lara Resende)

março 24, 2012

Um texto magnífico (publicado no jornal Valor Econômico de ontem)!

Fazia tempo que não lia algo tão interessante.

Parabéns André Lara Resende, um dos pais do Plano Real!

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23/03/2012 às 00h00

Bem-estar e húbris

Por André Lara Resende | Para o Valor
Ilustrações Nelson Provasi / Ilustrações Nelson Provasi

“Quem é este indivíduo autônomo e secular – do qual depende a existência do Estado moderno – que vive unicamente para satisfazer e aumentar seus desejos materiais?” (Pankaj Mishra, em “The End of Suffering”)

Questionado sobre se o dinheiro traz felicidade, Nelson Rodrigues fez uma pausa e fulminou: “Compra, o dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro”. Não sei se o teatrólogo realmente acreditava no que disse. Parece-me que sua afirmação deve ser entendida mais como uma “boutade” melancólica sobre a capacidade do ser humano de se iludir com as pompas do mundo do que uma convicção sincera.

Não é o caso da teoria econômica, que postula uma correlação direta entre renda e bem-estar. Todo o edifício teórico da economia está baseado na premissa de que mais renda significa mais consumo e de que mais consumo significa mais bem-estar. Pressupõe-se que a associação seja válida, não apenas no âmbito do indivíduo, mas também no da sociedade. Para a teoria econômica, o bem-estar da sociedade é apenas a soma do bem-estar dos indivíduos.

Há, entretanto, fortes evidências de que a má distribuição de renda afeta negativamente o bem-estar. Em “The Spirit Level”, Richard Wilkinson e Kate Pickett mostram que todos os indicadores de saúde física e emocional estão negativamente correlacionados com a desigualdade. Apesar de a teoria econômica desconsiderar o impacto da má distribuição da renda, é intuitivo que o bem-estar deva ser menor numa sociedade desigual. Para um mesmo nível de renda média, ganha-se em bem-estar se a renda for mais bem distribuída. Os estudos de Wilkinson e Kate vão além. Sustentam que não apenas os mais pobres, mas também os mais ricos são menos felizes do que seriam, se a renda fosse mais bem distribuída.

O tema, evidentemente, não é novo. Andou meio esquecido, mas há boas razões para que volte à baila. Se no Brasil a péssima distribuição da renda dá, finalmente, sinais de alguma melhora, nos países avançados, principalmente nos EUA, a distribuição da renda piorou consideravelmente nas últimas décadas. A distribuição da renda na maioria dos países, mesmo desenvolvidos, continua longe do aceitável, mas o verdadeiro problema hoje é a desigualdade entre países e regiões. Num mundo a cada dia mais integrado, o descalabro das desigualdades, ainda mais evidente, alimenta ressentimentos e conflitos. Depois de décadas de rápido crescimento da renda mundial, o fato de que as desigualdades não tenham sido reduzidas, mas, pelo contrário, exacerbadas até mesmo nos países mais desenvolvidos levanta sérias dúvidas sobre a hipótese de que o problema venha a ser resolvido pelo mero crescimento.

Parece-me importante deixar claro que considero as liberdades individuais o valor supremo da verdadeira democracia. Importante, porque há uma tradicional associação entre a defesa da redução das desigualdades e as propostas autoritárias, que suprimem as liberdades em nome da igualdade. A oposição entre igualdade e liberdade, embora não de todo falsa, não significa que haja entre elas uma contradição insuperável. O trauma do comunismo marxista deixou cicatrizes profundas. Ainda hoje é difícil fazer a defesa de uma sociedade menos desigual sem que se presuma a defesa de uma homogeneidade imposta e a subordinação das liberdades aos interesses do Estado.

Pesquisas sobre bem-estar são hoje feitas com frequência e em toda parte. Sabe-se que relação entre renda e bem-estar não é a que pressupõe a teoria econômica. A pobreza nos faz infelizes, é verdade, mas a partir de certo ponto o dinheiro não traz mais felicidade.

Uma pesquisa recente nos EUA, com observações diárias de mil pessoas e mais de 450 mil respostas, para o Índice de Bem-Estar Gallup-Healthways, mostra que o nível de renda familiar a partir do qual o bem-estar deixa de estar associado ao aumento da renda é de aproximadamente US$ 75 mil ao ano, nas áreas onde o custo de vida é alto, podendo ser menos, nas regiões onde o custo de vida é menor. A partir daí, não há mais aumento de bem-estar quando a renda aumenta.

Não há mais como justificar a defesa da ambição material. Numa sociedade de ambiciosos, o bem-estar vivido é inferior para todos

O resultado não apenas contradiz frontalmente a teoria econômica como é contraintuitivo. Mais renda significa mais opções. Não apenas de consumo, mas também de tempo livre para o lazer, para férias, para viagens e outras diversões. Era de esperar que o ganho adicional de bem-estar fosse menor para rendas mais altas ou, como dizem os economistas, que a utilidade marginal da renda fosse decrescente. O que surpreende é que seja nulo a partir de um nível de renda familiar tão baixo. Por que, satisfeitas as necessidades básicas, o aumento do bem-estar não acompanha o aumento da renda?

Antes é preciso fazer a distinção entre bem-estar e satisfação pessoal. Embora possam parecer equivalentes, ou ao menos altamente correlacionados, segundo Daniel Kahneman, são coisas inteiramente diferentes. Kahneman é um psicólogo israelense, professor emérito da Universidade de Princeton nos EUA, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002, por seus trabalhos sobre tomada de decisão em condições de incerteza. Seu último livro, “Thinking, Fast and Slow”, percorre toda a sua trajetória, desde o início da carreira de pesquisador, em linguagem acessível. É leitura obrigatória não apenas para os interessados em psicologia e economia, mas para todas as pessoas intelectualmente curiosas. Nesse caso, vale o que costumava dizer Rudiger Dornbusch, professor de toda uma geração de economistas formados no MIT: ao terminar a leitura você será um ser humano melhor.

Para a teoria econômica, a medida de bem-estar é chamada de “utilidade”. Mais renda, maior possibilidade de consumo, inclusive de lazer, aumenta a utilidade desfrutada. O termo foi cunhado por Jeremy Bentham, no século XIX, como uma aproximação da sensação percebida de dor e prazer, que segundo ele era o fio condutor da ação humana. Nem o próprio Bentham, que se desculpou por não ter encontrado um termo melhor, ficou satisfeito, mas o termo foi adotado pela teoria econômica. Kahneman chama a atenção para o fato de que a utilidade a que Bentham se referia não coincide com o que a teoria econômica passou a denominar de utilidade. A utilidade de Bentham é uma medida de satisfação sentida, já a utilidade da teoria econômica é uma medida de desejabilidade. Os dois conceitos só coincidem se – como assume a teoria – as pessoas desejam o que lhes dá satisfação e têm satisfação quando obtêm aquilo que desejam. Essa coincidência está por trás da hipótese de racionalidade dos agentes econômicos. Agentes racionais sabem o que desejam, não entram em contradição e tomam decisões que maximizam o seu bem-estar ou a sua utilidade. Grande parte da contribuição de Kahneman, em parceria com o amigo e colaborador Amos Tversky, para a teoria econômica foi justamente demonstrar as muitas situações em que essa hipótese não é válida.

Segundo Kahneman, a utilidade sentida de Bentham não coincide com autilidade de decisão da teoria econômica. Essa conclusão decorre da observação de que há uma diferença entre o eu que sente e o eu que lembra. O eu que sente é o que responde à pergunta “como me sinto neste momento?”. Já o eu que lembra é o que responde à pergunta “qual é minha impressão da experiência depois que ela terminou?”.

  

O eu que lembra tem duas peculiaridades que fazem que ele não coincida com o eu que sente. Para o eu da memória, tanto no caso das boas como no caso das más experiências, o tempo de duração é menos importante do que os picos, especialmente dos picos mais próximos do fim da experiência.

Férias nas quais houve alguns momentos de grande satisfação – especialmente se terminaram bem – são lembradas como altamente positivas, ainda que a maior parte do tempo tenha sido consumido com toda sorte de ansiedade e com as tradicionais dificuldades das viagens no mundo contemporâneo. Um fim de semana agradável na praia pode ser arruinado por um acidente, ainda que sem maiores consequências, na estrada de volta para casa. Para o eu que lembra, o acidente que causou apenas algumas horas de desconforto domina integralmente a boa experiência vivida durante todo o fim de semana. De mesma forma, quem se propõe uma tarefa que exige extraordinário esforço físico, como correr uma maratona, sofre durante grande parte da corrida, para ao terminar sentir-se realizado. Para o eu que lembra, a satisfação com o fato de ter realizado o desafio domina o sofrimento sentido durante a corrida.

Confundir a memória da experiência com a experiência vivida é uma quase irresistível ilusão cognitiva. A memória, embora muitas vezes equivocada, é a que conta em última instância. É o eu que lembra quem toma nota, quem define o que aprendemos ao longo da vida. É, portanto, quem toma decisões, quem pauta nossas vidas e quem avalia nosso grau de satisfação com ela. Não nos interessa ter uma vida toda agradável, sem aflições nem sofrimentos, mas também sem nada que valha a pena ser lembrado. A vida é percebida como uma narrativa em construção. Vale a pena se, quando contada, for uma boa história cujo herói merece ser admirado. Aqui também os picos de intensidade e sobretudo a conclusão são determinantes. Toda uma história admirável é arruinada por um grave equívoco perto do fim do fim da vida.

Nas pesquisas sobre bem-estar, pergunta-se aos entrevistados qual é o seu grau de satisfação com a vida. Tendo vindo de estudos que demonstravam que há uma grande diferença entre a experiência vivida e a memória da experiência, Kahneman sempre viu com desconfiança a possibilidade de que o resultado dessas pesquisas refletisse efetivamente o bem-estar vivenciado. Procurou encontrar uma forma de avaliar a experiência efetivamente vivida. Como não é possível fazer que as pessoas reportem continuamente como estão se sentindo, desenvolveu um método de amostragem no qual os participantes reportam como estão se sentido. Um programa de monitoramento sofisticado registra o que sentem os participantes, em pequenos intervalos, ao longo do dia. São avaliados sentimentos, tais como felicidade, tensão, raiva, preocupação, dor física, entre outros. Os participantes indicam a intensidade da experiência do que sentem numa escala de zero a seis. A partir dessas observações, constrói-se um Índice de Desconforto, que é a razão entre o tempo vivido com um sentimento negativo e o tempo vivido com um sentimento positivo. O Índice de Desconforto é, portanto, a percentagem do tempo que a pessoa passa com uma sensação negativa.

Pesquisas sobre o bem-estar vivenciado, com base em grandes amostras, são hoje rotina. Não apenas nas nações desenvolvidas, mas em mais de 150 países. Sua principal conclusão é que o melhor indicador de como uma pessoa se sentiu durante o dia é o fato de ter estado ou não com a família e com os amigos. Confirmam, portanto, a intuição expressa numa velha sabedoria popular: felicidade é estar com quem você gosta e com quem gosta de você. Por isso, a forma mais eficaz de reduzir o índice de desconforto é criar condições para que as pessoas tenham mais tempo para socializar-se. Melhorar o transporte público, reduzir o tempo de deslocamento, desenvolver soluções urbanísticas e arquitetônicas que aproximem as pessoas, oferecer boas creches e escolas, aumentar a possibilidade de socialização para os idosos são alguns exemplos.

É possível comparar os resultados de pesquisas que registram o bem-estar vivenciado com o das pesquisas baseadas em entrevistas sobre como as pessoas avaliam suas vidas. Fica claro que os fatores que afetam a experiência vivida não coincidem com os que determinam o grau de satisfação com a vida. Certas coisas têm grande impacto na percepção de satisfação com a vida, mas não afetam a experiência vivida de bem-estar. Educação, por exemplo, tem efeito positivo sobre o grau de satisfação com a vida, mas não faz diferença na qualidade da vida vivida. A renda, que, como vimos, a partir de um nível relativamente baixo não melhora em absolutamente nada o bem-estar vivido, tem grande impacto sobre o grau de satisfação com a vida. A conclusão é inescapável: não há correlação entre o bem-estar vivido e o grau de satisfação com a vida. São coisas inteiramente diferentes.

O grau de satisfação, ou de frustração, com a própria vida depende de coisas que não estão correlacionadas com aquelas que determinam o bem-estar cotidiano. Enquanto a qualidade da vida vivida é função da ausência de dor física, da boa saúde, do convívio com a família e com os amigos, a vida percebida depende, essencialmente, de objetivos alcançados. As pesquisas mostram que em relação ao dinheiro, assim como em relação a outros objetivos, as pessoas mais ambiciosas estão mais satisfeitas do que média, se atingiram seus objetivos, e mais insatisfeitas do que a média, se não atingiram seus objetivos. Ser ambicioso é uma faca de dois gumes. É uma aposta que exponencia, para o bem e para o mal, o grau de satisfação com a vida.

Em relação à vida efetivamente vivida, a ambição é um inequívoco detrator do bem-estar. Como ensina a sabedoria budista, o sofrimento está associado à inquietação do desejo difuso, ao ato de ansiar. Desejar provoca ansiedade e reduz o bem-estar vivido. Alcançar o desejado traz satisfação com a vida. São coisas distintas.

É difícil sustentar que um dos dois elementos da identidade deva ter precedência. Não é possível sustentar que só a experiência vivida deva ser levada em consideração, porque o grau de satisfação com a vida é relevante e também precisa ser levado em conta. Há, entretanto, uma diferença fundamental entre eles: a experiência vivida pode ser melhorada com políticas públicas, mas o grau de satisfação com a vida é primordialmente uma questão de aprimoramento pessoal.

É possível reduzir o índice de desconforto da vida vivida, aumentar o bem-estar vivenciado, com medidas que reduzam os fatores que provocam estresse e tensão no dia a dia. Para isso, transporte, saúde e mais tempo disponível para o convívio afetivo são os elementos críticos. Com relação ao bem-estar percebido, ao grau de satisfação com a vida, há muito menos espaço para a atuação das políticas públicas. Quando se trata de influenciar fatores emocionais subjetivos, como o grau de ambição e os objetivos pessoais, a ingerência do Estado corre o risco de se tornar manipuladora e de atropelar as liberdades individuais. A proibição às drogas e ao fumo, a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança nos automóveis e do capacete nas motocicletas são exemplos de medidas nas quais a defesa do bem-estar social tem avançado sobre as liberdades individuais.

Infelizmente, a constatação de que não somos sempre racionais nas escolhas, como pressupõe a teoria econômica, reduz a base de sustentação conceitual para a não interferência do poder público nas decisões individuais. A saída parece ser contextualizar adequadamente as opções, sem restringir as escolhas individuais, como sugerem Richard H. Thaler e Cass R. Sunstein em “Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth and Happiness”.

Sabemos que a renda e o consumo acima de um nível capaz de garantir as necessidades essenciais não afetam o bem-estar vivido. Em contrapartida, a alta renda e o consumo conspícuo, especialmente para as pessoas ambiciosas, aumentam o grau de bem-estar percebido, o grau de satisfação com a vida. Em relação ao bem-estar individual, não temos por que dar prioridade a um tipo de bem-estar – o vivido ou o percebido – sobre o outro. Os dois parecem igualmente importantes. Não cabe ao Estado, nem com a melhor das intenções, tentar influenciar como as pessoas avaliam a própria vida.

Quando se trata do bem-estar coletivo, a questão é mais complicada. Como a ambição reduz a vivência de bem-estar, uma sociedade mais ambiciosa tem bem-estar vivido inequivocamente inferior ao de uma menos ambiciosa. Em relação ao bem-estar percebido, a ambição aumenta o bem-estar dos bem-sucedidos, mas também a frustração dos malsucedidos. Não há como saber se a intensidade da satisfação dos vencedores é maior do que a intensidade da frustração dos perdedores. É provável que não, pois a dor do fracasso, quando não há nova chance – e a vida é uma só -, é maior do que o prazer do sucesso. Assim, uma sociedade de ambiciosos não tem apenas o bem-estar vivido inferior ao de uma sociedade menos ambiciosa, mas também o bem-estar percebido, pois o ganho dos bem-sucedidos é mais do que compensado pela perda dos malsucedidos.

Há ainda a perversa, mas plausível, possibilidade de que o ganho de bem-estar dos bem-sucedidos seja função da perda de bem-estar dos fracassados. Como ouvi de um colega do mercado financeiro: “Não sei se gosto mais de ganhar dinheiro ou de saber que meus amigos perderam”. De toda forma, não é possível afirmar de forma inequívoca que a sociedade menos ambiciosa domina integralmente a sociedade de ambiciosos, pois nesta última, ao menos os bem-sucedidos, em termos de vida percebida, estão melhor.

Há hoje um elemento novo na equação do bem-estar: os limites físicos do planeta. Enquanto estavam distantes, a defesa da ambição material poderia fazer sentido. Ainda que provocasse uma redução do bem-estar no presente – à exceção do dos bem-sucedidos -, era possível sustentar que contribuía para o aumento do padrão de vida de todos ao longo do tempo. Contribuía, portanto, para o aumento do bem-estar das gerações futuras. Não há mais como justificar a defesa da ambição material. Numa sociedade de ambiciosos, o bem-estar vivido é inferior para todos. O bem-estar percebido é inferior para os que se frustram e o ganho dos que têm sucesso acelera o processo de redução do bem-estar das gerações futuras. A conclusão é inescapável: uma vez atingidos os limites físicos do planeta, todos perdem numa sociedade materialmente ambiciosa, até mesmo, ou especialmente, as gerações futuras. A exceção são os ambiciosos bem-sucedidos, e ainda assim só em termos de satisfação com a vida, pois também para eles a vida vivida é pior.

Estamos diante de uma mudança profunda das circunstâncias, que transforma a ambição material na húbris do homem moderno. Daniel Kahneman e Amos Tversky, em seus estudos sobre a tomada de decisão em condições de incerteza, demonstraram que, quando há algo a ganhar, preferimos o certo ao incerto. Mas quando o que está em jogo é percebido como uma perda, nossa atitude se inverte e preferimos a aposta. Optamos por correr o risco para nos tirar da saia justa. Essa é nossa atitude diante dos limites físicos do planeta. Optamos por correr o risco, por confiar na sorte, porque achamos que temos algo a perder se abrirmos mão da ambição material. O mais absurdo é que não temos realmente nada a perder.

André Lara Resende é economista

Carta IEDI nº 512 – A Crise da Indústria e o Desempenho do Setor no Início de 2012

março 23, 2012

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial- IEDI divulgou sua nova carta. Ei-la abaixo!

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Sumário

A Carta IEDI desta semana trata das causas da grave crise que a indústria atravessa e faz uma breve analise do desempenho industrial nesse início de ano. Reúne uma série de artigos de membros do IEDI e Análises elaboradas pelos técnicos do Instituto. Pedro Passos, Presidente o IEDI, defende em artigo publicado no OESP que “o mundo pós-crise de 2008 descortinou o que já era uma realidade para quem acompanha a evolução industrial: o Brasil perdeu competitividade porque se transformou em um país caro demais. A tributação tornou-se muito alta, assim como os custos da energia, da logística, dos encargos trabalhistas e do investimento.”

Na questão cambial que vem contribuindo para retirar competitividade ao produto nacioanal, sustente que “o Brasil não deve almejar nem o câmbio subvalorizado que alguns países seguem, nem o câmbio valorizado como prevaleceu nos últimos anos e voltou a se apresentar nos primeiros meses deste ano. Nesse tema, deveria ser perseguido com tenacidade um câmbio competitivo que neutralize minimamente os efeitos dos problemas apontados, cuja solução virá somente em um prazo maior.”

E conclui observando que “a combinação das três facetas – relativas a custos, produtividade e câmbio – associadas ao quadro internacional vigente está na base da virtual estagnação da indústria manufatureira do País no ano passado e neste início de 2012. Não há como não ficar apreensivo sobre a evolução futura da indústria, a menos que ocorram mudanças relevantes em todas as questões acima. Contudo, ao longo do ano entrarão em cena alguns fatores de estímulo que poderão melhorar o desempenho industrial, como a redução da taxa básica de juros e a elevação do salário mínimo, que ampliarão o consumo de setores empregadores e de baixa penetração das importações, como alimentos e bebidas.”

No artigo “Como Recuperar o Vigor (Luiz Gonzaga Belluzzo e Julio Gomes de Almeida, publicado na revista Carta Capital de 07/03/2012) os autores fazem um retrospecto da relevância da indústria para o desenvolvimento mundial e resumem o processo que levou ao enfraquecimento industrial brasileiro nos últimos 30 anos.

O artigo conclui defendendo que “uma nova etapa de crescimento industrial não deve contemplar – nem pode, nas condições atuais da economia mundial – uma estratégia export led. O Brasil está em condições de estabelecer uma macroeconomia da reindustrialização, usando de forma inteligente as vantagens que se revelaram recentemente.

Não se trata tão somente de concentrar os esforços na manutenção de um câmbio subvalorizado, mas de desenvolver um conjunto de políticas voltado para o objetivo de expansão do mercado interno sem incorrer nas restrições de balanço de pagamentos. Nessa estratégia, não cabe a determinação da taxa de câmbio como um ativo cujo “preço” é formado pelo movimento de capitais. A taxa de câmbio tem de ser administrada de modo a evitar valorizações bruscas como a observada nos últimos meses, em que o valor da moeda brasileira em relação ao dólar passou de R$ 1,85 a R$ 1,70.

Essa estratégia apoiada no mercado interno envolve, ademais, o equilíbrio do orçamento corrente e a rápida ampliação do orçamento de investimento e o prosseguimento do processo de inclusão e de distribuição de renda. Esse circuito virtuoso poderá ser construído com mais facilidade se os recursos oriundos do pré-sal forem destinados à correção das distorções da estrutura tributária e utilizados para reverter o encarecimento dos insumos fundamentais, além de gerar espaço e demanda para a reindustrialização.”

Sobre a política industrial, sustenta que esta “deve ser concebida no âmbito de uma estratégia de desenvolvimento nacional que promova a reindustrialização. Esse arranjo deve estar apoiado no potencial do mercado interno brasileiro, nas vantagens competitivas do agronegócio e da mineração – agora acrescidas das perspectivas do pré-sal – e na preservação de seu sistema público de financiamento.”

As Causas da Crise Industrial Brasileira (Artigo de Pedro Luiz Barreiros Passos, presidente do IEDI, publicado no jornal O Estado de São Paulo em 11/03/2012).

O mundo pós-crise de 2008 descortinou o que já era uma realidade para quem acompanha a evolução industrial: o Brasil perdeu competitividade porque se transformou em um país caro demais. A tributação tornou-se muito alta, assim como os custos da energia, da logística, dos encargos trabalhistas e do investimento.

Nos últimos anos, os salários vêm se tornando outro fator de pressão. Os setores de serviços e a agropecuária, por não sofrerem a concorrência do produto importado ou por usufruírem de elevados preços internacionais, puderam absorver os maiores custos, o que não foi o caso da indústria.

Com exceção da reforma tributária e do inexplicável custo da energia elétrica, que ainda esperam por iniciativas mais efetivas, as questões acima vêm sendo alvo de atenção do governo. Ainda que de forma tímida, se procurou baratear os encargos da previdência e desonerar as exportações e as inversões. Também foram acionados mecanismos para acelerar os investimentos na infraestrutura por meio da parceria com o setor privado em aeroportos.

Mas o ponto é que os efeitos que se pode esperar dessas medidas são de longo prazo, enquanto os impasses se apresentam de forma aguda devido a uma hiperconcorrência internacional pelos poucos mercados dinâmicos existentes no mundo, dentre eles o Brasil.

Por outro lado, há evidências de que a economia brasileira vem acumulando um atraso significativo em sua produtividade com relação a outras economias. Na indústria, a produtividade do trabalho, que crescera 3,6% em termos médios anuais entre 2004/2007, evoluiu somente 1,2% nos últimos quatro anos, enquanto o custo real do trabalho tinha elevação de 2,2%.

Portanto, diante de custos crescentes, a indústria precisa de uma mais rápida evolução da produtividade. O Plano Brasil Maior elegeu como objetivo principal de suas ações o impulso à inovação, o que vai ajudar a competitividade da indústria. Contudo, há uma lacuna a ser explorada no que diz respeito à prioridade à produtividade, o que envolve o tema da inovação, porém vai além.

A associação entre altos custos e baixos padrões de produtividade só poderia ser compensada a curto prazo pela taxa de câmbio. Não tem sido esse o caso, pelo contrário, já que a valorização do real aumenta adicionalmente os custos em dólar de se produzir no País.

O Brasil não deve almejar nem o câmbio subvalorizado que alguns países seguem, nem o câmbio valorizado como prevaleceu nos últimos anos e voltou a se apresentar nos primeiros meses deste ano. Nesse tema, deveria ser perseguido com tenacidade um câmbio competitivo que neutralize minimamente os efeitos dos problemas apontados, cuja solução virá somente em um prazo maior.

A combinação das três facetas – relativas a custos, produtividade e câmbio – associadas ao quadro internacional vigente está na base da virtual estagnação da indústria manufatureira do País no ano passado e neste início de 2012. Não há como não ficar apreensivo sobre a evolução futura da indústria, a menos que ocorram mudanças relevantes em todas as questões acima. Contudo, ao longo do ano entrarão em cena alguns fatores de estímulo que poderão melhorar o desempenho industrial, como a redução da taxa básica de juros e a elevação do salário mínimo, que ampliarão o consumo de setores empregadores e de baixa penetração das importações, como alimentos e bebidas.

Caso esse cenário se concretize, devemos ter muita cautela para que as questões determinantes da regressão manufatureira não sejam colocadas em segundo plano por uma falsa interpretação de que não há uma crise industrial no País. A gravidade da situação atual da indústria brasileira não deve ser ignorada.

Na política industrial, contribuiria muito para o reerguimento da indústria se aos setores produtores de insumos de utilização generalizada fosse atribuída uma maior prioridade. Uma política com a firme intenção de reduzir os custos nas etapas iniciais das mais complexas cadeias industriais, a começar pelo custo de energia, é um caminho que, embora de alta complexidade, mais dividendos trará a longo prazo para toda indústria, inclusive para os setores de bens de consumo que dessa forma poderiam reduzir seus custos de produção.

Como Recuperar o Vigor (Artigo de Luiz Gonzaga Belluzzo e Julio Gomes de Almeida, publicado na revista Carta Capital em 07/03/2012).

A perda de competitividade industrial não é resultado apenas das mudanças estruturais da economia contemporânea

O grande historiador Carlo Cipolla afirmou que a economia dos homens atravessou dois momentos cruciais: o Neolítico e a Revolução Industrial. No Neolítico, os povos abandonaram a condição de “bandos selvagens de caçadores” e estabeleceram as práticas da vida sedentária e da agricultura. Entre as incertezas e brutalidades da “vida natural”, tais práticas difundiram condições mais regulares de subsistência dos povos e assentaram as bases da convivência civilizada. Podemos afirmar que ao longo de milênios as sociedades avançaram lentamente nas técnicas de gestão da terra, desenvolvidas à sombra de distintos regimes sociais e políticos e, portanto, sob formas diversas de geração, apropriação e utilização dos excedentes.

Às vésperas da Revolução Industrial, os fisiocratas consideravam “produtiva” somente a classe de agricultores. A manufatura era a atividade da classe estéril, que conseguia apenas repor seus custos por meio das trocas e, assim, preparar-se para o período de produção seguinte. A agricultura era, nesse sentido, “produtiva”, ou seja, a única atividade capaz de gerar excedente.

“A Revolução Industrial”, escreveu Cipolla, “transformou o homem agricultor e pastor no manipulador de máquinas movidas por energia inanimada.” A ruptura radical no modo de produzir introduziu profundas alterações no sistema econômico e social. Aí nascem, de fato, o capitalismo, a sociabilidade, a urbe moderna e seus padrões culturais. A diferença entre a vida moderna e as anteriores decorre do surgimento do sistema industrial, que não só cria novos bens e os bens instrumentais para produzi-los, como suscita novos modos de convivência, de “estar no mundo”. Desse ponto de vista, a indústria não pode ser concebida como mais um setor ao lado da agricultura e dos serviços.

A ideia da Revolução Industrial como um momento crítico trata da constituição histórica de um sistema de produção e de relações sociais que subordinam o crescimento da economia a sua capacidade de gerar renda, empregos e criar novas atividades. O surgimento da indústria como sistema de produção apoiado na maquinaria “endogeiniza” o progresso técnico e impulsiona a divisão social do trabalho, engendrando diferenciações na estrutura produtiva e promovendo encadeamentos intra e intersetoriais.

Além de sua permanente autodiferenciação, o sistema industrial deflagra efeitos transformadores na agricultura e nos serviços. A agricultura contemporânea não é mais uma atividade “natural” e os serviços já não correspondem ao papel que cumpriam nas sociedades pré-industriais. O avanço da produtividade geral da economia não é imaginável sem a dominância do sistema industrial no desenvolvimento dos demais setores.

Os autores do século XIX anteciparam a “industrialização” do campo e perceberam a importância dos novos serviços gestados nas entranhas da expansão da indústria. Não há como ignorar, por exemplo, a revolução nos transportes e as transformações no sistema financeiro no período. São reconhecidas as interações entre a expansão da ferrovia e do navio a vapor e o desenvolvimento do setor de bens de capital apoiado no avanço da indústria metalúrgica e metalmecânica e na concentração da capacidade de mobilização de recursos líquidos nos bancos de negócios.

A história dos séculos XIX e XX pode ser contada sob a ótica dos processos de integração dos países aos ditames do sistema mercantil-industrial originário da Inglaterra. Essa reordenação radical da economia exigiu uma resposta também radical dos países incorporados à nova divisão internacional do trabalho. Para os europeus retardatários, para os norte-americanos e japoneses e mais tarde para os brasileiros, coreanos, chineses, russos e outros, a luta pela industrialização não era uma questão de escolha, mas uma imposição de sobrevivência das nações, de seus povos e de suas identidades.

Paradoxalmente, a especialização de alguns países na produção de bens não industriais é fruto da própria diferenciação da estrutura produtiva capitalista à escala global comandada pela dominância do sistema industrial. Esse é o caso de países dotados de uma relação população/recursos humanos favorável, entre eles Austrália, Nova Zelândia, Uruguai e Chile. A especialização decorre da própria divisão de trabalho suscitada pela expansão do sistema industrial.

Mas a especialização ou reespecialização virtuosa dos produtores de commodities na economia atual nem legitima nem justifica o processo de desindustrialização em curso no Brasil. Ao longo de cinco décadas, até o início dos anos 1980 do século passado, o País empreendeu um ingente esforço para construir um sistema industrial relativamente avançado.

Concentrados na expansão dos setores pesados, os investimentos do II PND em meados dos anos 1970 deram impulso a um novo ciclo de exportação de manufaturados de tecnologia madura e de substituição de importações. Mas a estratégia escolhida não só provocou a crise da dívida do início dos anos 80 como descurou da incorporação dos setores da chamada Terceira Revolução Industrial, como a eletrônica de consumo, componentes eletrônicos, informatização dos processos produtivos, novos materiais e química fina.

A crise da dívida externa e as políticas liberais que se seguiram à estabilização dos anos 90 encerraram uma longa trajetória de crescimento industrial e criaram as bases para o retrocesso da indústria de transformação. A participação da indústria no PIB caiu de 35,8% em 1984 para 15,3% em 2011. O leitor poderá comparar o índice brasileiro com dados para 2010 da ONU para países como China (43,1%), Coreia (30,4%) ou mesmo Alemanha (20,8%). O padrão brasileiro é mais comparável ao país que mais se desindustrializou durante a chamada globalização, os EUA: 13,4%.

Essa queda seria natural se decorresse dos ganhos de produtividade obtidos ou difundidos pelo crescimento da indústria, como ocorreu em países de industrialização madura. Mas não foi isso que se observou no Brasil. No momento em que ocorria uma revolução tecnológica e a intensa redistribuição da capacidade produtiva manufatureira entre o centro e os emergentes, alterando o esquema tradicional centro-periferia, o Brasil foi empurrado para uma inserção desastrada que culminou na desvalorização do real de 1999.

As políticas inspiradas no consenso neoliberal desataram a valorização da taxa de câmbio real (nesse caso, na contramão do Consenso de Washington), a privatização das empresas produtoras de insumos e serviços fundamentais e promoveram uma elevação da carga tributária, onerando sobretudo a indústria, o investimento e as exportações. As privatizações tinham como propósito de curto prazo aumentar a receita do governo. Na verdade, a receita fiscal foi tragada pela carga de juros, irmã siamesa do câmbio real valorizado. A suposta eficiência dos serviços privatizados escorreu pelo ralo do aumento real de tarifas.

O Brasil encerrou os anos 90 com uma regressão da estrutura industrial, ou seja, não acompanhou o avanço e a diferenciação setorial da indústria manufatureira global e, ademais, perdeu competitividade e elos nas cadeias que conservou. Contrariamente ao afirmado pela vulgata neoliberal a respeito da globalização, o movimento de relocalização manufatureira foi determinado por duas forças complementares e, não raro, conflitantes: o movimento competitivo da grande empresa transnacional para ocupar espaços demográficos de mão de obra abundante e as políticas nacionais dos Estados soberanos nas áreas receptoras.

Nos anos 2000, a estrutura e a dinâmica da produção e do comércio globais, originada pela concomitância entre os movimentos da grande empresa e as políticas nacionais (particularmente as da China), colocou o Brasil, por conta de sua dotação de recursos naturais (água, energia, terras agriculturáveis, base mineral), em posição simultaneamente promissora e perigosa. Bafejado pela liquidez internacional, antes e depois do estouro da bolha imobiliária, e abalroado pela demanda chinesa de commodities, o País foi condescendente com a ampliação e generalização do déficit comercial que afetou a maioria dos setores industriais, ao mesmo tempo em que o agronegócio e a mineração sustentavam um superávit global no comercio exterior.

Para ilustrar como os fatores assinalados teriam efeitos devastadores sobre o comércio exterior brasileiro de produtos da indústria de transformação, se em 2006 o saldo era positivo em 29,8 bilhões de dólares, em apenas cinco anos, vale dizer, em 2011, o resultado alcançaria valor negativo de 48,7 bilhões. Destaques para os déficits em produtos químicos (-22,4 bilhões), bens de capital mecânicos (-14,5 bilhões), equipamentos de rádio, tevê e comunicação (-11,4 bilhões) e veículos automotores (-7,4 bilhões). O resultado global do comércio exterior manteve-se superavitário em 29,8 bilhões de dólares em 2011 (40 bilhões em 2006), graças ao extraordinário saldo em commodities agrícolas e minerais de 78,5 bilhões de dólares (46,4 bilhões em 2006).

A abundância de divisas teve larga contribuição do fluxo de capitais, antes e depois da crise financeira. A situação benigna provocou o descuido com a persistência dos fatores que determinaram o encolhimento e a perda de dinamismo da indústria: câmbio valorizado, tarifas caras, em termos internacionais, dos insumos de uso geral e carga tributária onerosa. Na medida em que tivemos a ventura de ampliar o déficit financiável em conta corrente, o câmbio passou a apresentar uma tendência acentuada e contínua de valorização. A crise financeira internacional e as políticas monetárias utilizadas nos países desenvolvidos para conter seus efeitos só agravaram a situação.

Fica claro que a falsa inserção competitiva da economia brasileira está cobrando o seu preço. Falsa, porque as políticas dos anos 90 entendiam que bastava expor a economia à concorrência externa e privatizar para lograr ganhos de eficiência micro e macroeconômica. Percorremos o caminho inverso dos asiáticos que abriram a economia para as importações redutoras de custos.

A abertura estava, portanto, comprometida com os ganhos de produtividade voltados para o aumento das exportações. As relações importações/exportações faziam parte das políticas industriais, ou seja, do projeto que combinava o avanço das grandes empresas nacionais nos mercados globais e a proteção do mercado interno. As importações não tinham o objetivo de abastecer o consumo das populações. Estas se beneficiaram sim dos ganhos de produtividade e da diferenciação da estrutura produtiva assentada em elevadas taxas de investimento.

O crescimento brasileiro jamais se valeu de uma estratégia de crescimento puxada pelas exportações – export led – mas, a partir dos anos 1960, procurou estimular as vendas externas para ampliar a capacidade de importar e afastar o risco do estrangulamento externo. Nesse particular, o crescimento brasileiro tem grande semelhança com aquele dos Estados Unidos, uma economia continental. Dotados de fartos recursos naturais, os EUA recorreram a políticas escancaradamente protecionistas para garantir o seu desenvolvimento industrial, voltado sobretudo para o mercado interno.

O Brasil incorporou 16 milhões de famílias ao mercado de consumo moderno por conta das políticas sociais e de elevação do salário mínimo, que habilitam esses novos cidadãos ao crédito (os resultados dessas políticas no comportamento das camadas beneficiárias são analisados por Walquiria Leão Rego em artigo à página 42).

Essa incorporação será limitada se não estiver apoiada na ampliação do espaço de criação da renda. Nas economias emergentes bem-sucedidas, a ampliação do espaço de criação da renda é fruto da articulação entre as políticas de desenvolvimento da indústria (incluídas a administração do comércio exterior e do movimento de capitais) e o investimento público em infraestrutura. Esse arranjo, ao promover o crescimento dos salários e dos empregos, gera, em sua mútua fecundação, estímulos às atividades complementares e efeitos de encadeamento para trás e para frente.

Não se trata de retornar às políticas dos anos 50, 60 e 70, mas de ajustar a estratégia nacional de desenvolvimento às oportunidades e restrições criadas pela nova configuração da economia mundial. O modelo adotado desde os anos 90, a pretexto de estimular a competitividade da indústria, realizou a operação contrária. Desalentou as exportações de manufaturados e favoreceu as importações predatórias, filhas diletas do câmbio valorizado, dos custos elevados dos insumos de uso generalizado e de um sistema tributário irracional.

Daí, uma nova etapa de crescimento industrial não deve contemplar – nem pode, nas condições atuais da economia mundial – uma estratégia export led. O Brasil está em condições de estabelecer uma macroeconomia da reindustrialização, usando de forma inteligente as vantagens que se revelaram recentemente.

Não se trata tão somente de concentrar os esforços na manutenção de um câmbio subvalorizado, mas de desenvolver um conjunto de políticas voltado para o objetivo de expansão do mercado interno sem incorrer nas restrições de balanço de pagamentos. Nessa estratégia, não cabe a determinação da taxa de câmbio como um ativo cujo “preço” é formado pelo movimento de capitais. A taxa de câmbio tem de ser administrada de modo a evitar valorizações bruscas como a observada nos últimos meses, em que o valor da moeda brasileira em relação ao dólar passou de R$ 1,85 a R$ 1,70.

Essa estratégia apoiada no mercado interno envolve, ademais, o equilíbrio do orçamento corrente e a rápida ampliação do orçamento de investimento e o prosseguimento do processo de inclusão e de distribuição de renda. Esse circuito virtuoso poderá ser construído com mais facilidade se os recursos oriundos do pré-sal forem destinados à correção das distorções da estrutura tributária e utilizados para reverter o encarecimento dos insumos fundamentais, além de gerar espaço e demanda para a reindustrialização.

A política industrial deve ser concebida no âmbito de uma estratégia de desenvolvimento nacional que promova a reindustrialização. Esse arranjo deve estar apoiado no potencial do mercado interno brasileiro, nas vantagens competitivas do agronegócio e da mineração – agora acrescidas das perspectivas do pré-sal – e na preservação de seu sistema público de financiamento.

Indústria – Em Torno À Indústria, Um Sistema de Produção (Análise IEDI publicada em 28/02/2012).

O estágio atual de declínio da indústria brasileira recomenda que seja feita uma reflexão sobre o significado da indústria e suas relações com os demais setores da economia. Todos os segmentos econômicos têm particularidades a partir das quais é possível identificar contribuições relevantes para a economia, seja na criação de empregos, na geração de divisas, dentre outros exemplos. Abaixo será tratado o tema da indústria e seus aportes ao desenvolvimento econômico.

Não é por acaso que se deu o nome de Revolução Industrial ao processo de generalização do sistema fabril. Esse processo que tem início no século XVIII, foi além de aniquilar a produção até então prevalecente porque instituiu um sistema interligado e complexo de geração de valor e de progresso técnico. Interligado porque a indústria cria novos bens e serviços, novos métodos e instrumentos e maquinas que potencializam a produção de si própria e dos demais setores. A agricultura e serviços, evidentemente, produzem tecnologia independentemente do setor industrial. O Brasil é um exemplo disso, através da Embrapa e sua enorme capacidade de inovar no campo. Mas, em geral, são os insumos e os meios de produção concebidos na indústria os responsáveis pelo progresso técnico e aumento da produtividade não só nesse setor como em toda a economia.

A indústria tem outra poderosa característica, além da geração e difusão de tecnologia. Isto porque ela é capaz de induzir, a partir de sua produção, demanda para outros setores e para si mesma. Isso tem um significado todo especial para o desenvolvimento econômico, pois implica que um dado estímulo de demanda – proveniente do investimento, consumo ou exportação – resultará em crescimento maior da renda e do emprego na condição de que a economia tenha um setor industrial relevante. Esta é outra forma de dizer que o multiplicador do gasto autônomo será tão maior quanto maior a força do setor. A indústria tem esse poder porque através de suas compras de bens e serviços intermediários, simultaneamente torna a sua produção uma produção adicional para outros segmentos industriais e para os demais setores da economia. Além disso, como para produzir é necessário em alguma medida empregar e investir mais, novos efeitos dinâmicos são desencadeados a partir daí.

Assim, a indústria define um sistema de produção. Não é por outra razão que os processos mais representativos do avanço econômico moderno passam pela industrialização. Inglaterra, a origem de tudo, França, Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coreia e agora a China, conceberam seu desenvolvimento em torno da indústria. Primeiro, pela capacidade de difusão do dinamismo desse setor para a economia como um todo; segundo, porque aí reside a condição do maior progresso técnico. Inovar é uma decorrência da industrialização avançada, especialmente, no segmento produtor de bens de capital, bens intermediários e bens de consumo de última geração tecnológicas.

Nem todo país pode contar com setor industrial capaz de gerar esses efeitos endógenos, se a população é pequena ou a dimensão territorial é restrita. Não sendo assim, o desenvolvimento passa pela indústria. Nesses casos, as políticas macroeconômicas e as políticas de crédito, câmbio, tributação, P&D, comércio exterior, atração de investimentos e capitais estrangeiros, dentre outras, devem estar em consonância com o objetivo do avanço industrial. O Brasil, um país continental, populoso e de grande mercado interno, paradoxalmente vive um momento em que nunca foram tão favoráveis as condições internas e externas para sua reindustrialização, ao mesmo tempo em que se apresentam, como nunca antes, os perigos de uma aguda e definitiva desindustrialização. Tudo porque não há uma definição clara sobre os rumos que deverá seguir seu desenvolvimento econômico de longo prazo.

A Indústria Pede Socorro (Entrevista de Julio Gomes de Almeida publicada na revista Digesto Econômico em Jan/Fev 2012).

No último dia de janeiro, o IBGE divulgou os dados da produção industrial de 2011. A indústria fechou o ano passado com uma expansão de apenas 0,3%. Os vilões pelo fraco desempenho foram o câmbio desfavorável às exportações, que beneficiaram os produtos importados, e a desaceleração da economia nos meses finais de 2011, principalmente pela crise europeia. Segundo os dados consolidados para o ano, setores que são mais sensíveis à concorrência de produtos importados tiveram desempenho negativo, como o têxtil (-14,9%), calçados e artigos de couro (-10,4%) e outros produtos químicos (-2,1). Já os bens de consumo duráveis, como eletrodomésticos, tiveram queda de -2% e bens semi e não duráveis (alimentos, vestuários e outros) apresentaram queda de -0,2%. O setor de veículos automotores cresceu 2,4%, mas o responsável por isso foi a fabricação de caminhões. A produção de automóveis de passeio despencou -7,8% em 2011.

Em entrevista ao Digesto Econômico, o economista e diretor executivo do IEDI – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, Julio Sergio Gomes de Almeida, explica o que vem ocorrendo no setor industrial. Em sua opinião, o governo federal deveria ser mais rígido no controle do câmbio, para que o real não fique supervalorizado, além de reduzir os custos de produção no Brasil, principalmente a carga tributária e os encargos trabalhistas. “No chão de fábrica não estamos tão ruins em comparação aos padrões internacionais. O problema está da porta da fábrica para fora”, afirma Almeida.

Digesto Econômico – Fala-se muito em desindustrialização e sucateamento da indústria brasileira. Isso realmente vem ocorrendo?

Julio Sergio Gomes de Almeida – Infelizmente sim.Esta discussão envolve várias dimensões. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que o Brasil sempre vai ter sua indústria, por mais que se importe, já que é um país continental. Um exemplo é o setor automotivo, que vende em torno de 3 milhões de unidades. Não dá para importar tudo. Temos também de alimentar a população, o que envolve a transformação de alimentos. Por mais que a gente perca a indústria de vestuário, e estamos perdendo muito, sempre teremos empresas neste setor, já que o mercado é muito pulverizado. Então, não precisamos temer perder toda a nossa indústria, mas a perda tem sido grande, sobretudo nos últimos três anos. Desde a crise de 2008, o nosso mercado interno consumidor, baseado no índice de varejo do IBGE, cresceu pouco mais de 35%. A nossa indústria poderia ter suprido parte desse crescimento, mas a produção industrial neste mesmo período não aumentou mais do que 12%. Isso significa dizer que a nossa indústria não foi capaz de acompanhar o aumento do mercado. Para mim, isso é um sinal de desindustrialização. É quando se tem um potencial de crescimento do mercado interno, mas a indústria não é capaz de acompanhar, a ponto de gerar essa distorção que estamos vendo – o mercado cresceu 35% e a indústria apenas 12%.

Quais setores estão sendo mais prejudicados hoje? Há setores que estão em boa situação?

Entre os mais prejudicados temos o setor químico, que vem sofrendo uma desindustrialização forte; na área de defensivos agrícolas e adubos, a queda é muito forte; a indústria de plástico está sendo muito prejudicada, assim como a de papel. Na área de bens de capital, a nossa indústria de máquinas está perdendo muito e perdendo duplamente, no produto final, a máquina pronta, e perdendo densidade, ou seja, está se transformando em uma montadora. Na indústria de bens de consumo, a indústria automobilística perdeu muito, mas o governo elevou o IPI para importados, o que deve melhorar a situação; o setor de vestuário vem sofrendo muito, assim como a de calçados; a de brinquedos já vinha sofrendo há muito tempo. Temos outras áreas que sofrem, mas possuem uma relativa capacidade para se manterem, como as siderúrgicas, de cimento e outras. Dentre as que não estão sofrendo, que são em número bem menor, estão a de alimentos – pois há toda uma população para se alimentar e a logística para se importar é complexa –, a farmacêutica, cosméticos e aeronaves.

Essa desindustrialização vem ocorrendo somente no Brasil ou também em outros países?

Vem ocorrendo em outros países sim, mas no caso do Brasil o efeito é mais perverso. Em um país com renda per capita de 40 mil, 50 mil dólares, como no caso do Japão, que está sofrendo uma forte desindustrialização, ou dos Estados Unidos, que já sofreram, a dor de perder sua indústria é a de perder aquilo que o fez grande, mas a população não sofre tanto, pois o país já atingiu um grau de desenvolvimento grande. Eu diria que o fenômeno é grave de acordo com o momento em que o país se encontra. O Brasil tem uma renda per capita de 13 mil dólares. Para começar a pensar em ser um país desenvolvido é preciso ter uma renda per capita superior a 25 mil dólares. Temos ainda que dobrar a nossa renda e a indústria tem papel fundamental para dar este impulso. Nós não temos ainda uma economia tão madura a ponto de dispensar um setor, que pode compor com outros, um contexto de levar o País ao progresso.

Diante deste quadro, o que está faltando para o Brasil? Seria uma política industrial?

Acho que o Brasil ficou muito tempo sem uma política industrial. Mas o que acontece para termos um mercado em crescimento e uma indústria patinando? Não acho que o problema seja tanto a indústria, mas o País. Se olharmos por vários critérios, tudo indica de que está muito caro produzir no Brasil. Isso vale para a agricultura, para o setor de serviços e também para a indústria. Acontece que, neste caso, a indústria tem uma especificidade, que o setor de serviços e o comércio não têm, e a agricultura tem um pouco: todo aumento de custo sistêmico, que aparece para todos, poderia ser contestado por um produto importado, mas não é o caso de serviços e comércio – eventualmente, o cliente pode comprar pela internet no exterior, mas não é uma coisa corriqueira; alguns serviços é possível importar, como call center, software, diagnóstico médico, ensino a distância, etc, mas o grosso são serviços locais. A agricultura poderia ser contestada por produtos importados, mas ela é muito forte, os outros países é que devem se preocupar e não a gente, pois temos bons preços internacionais. Mas a indústria não. Ou seja, a agricultura tem como lidar com esse aumento de custos e os setores de serviços e comércio não são contestados. Esse aumento de custos tira a competitividade da indústria. Por isso que eu digo que o problema não é a indústria, mas o País. Temos que discutir os custos e como podemos produzir neste País.

O Brasil tem uma política industrial?

O que é política industrial? É olhar o setor e suas necessidades. Nós temos uma política e acho que estamos fazendo uma boa política industrial, o que falta é olharmos os problemas do País como um todo e nos darmos conta de que o Brasil precisa mudar. Do contrário, continuaremos a perder competitividade.

Se temos uma política industrial, o governo e o setor sabem como estaremos daqui a dez anos, por exemplo?

Eu gostaria que a nossa política fosse mais definidora, mais clara do que queremos para o futuro. É como termos “avenidas”, como ocorre na China – eles têm uma política industrial muito mais clara. Mas isso exige uma articulação que o governo não tem; exigiria algum tipo de recurso, pelo menos durante algum tempo, que eventualmente o governo não dispõe; mas o que eu acho que falta, sobretudo na nossa indústria, e aí sim o governo poderia ter feito muito mais, é uma política para aumentar a produtividade da indústria e dos setores que se relacionam com ela, principalmente o de serviços. Acho que a principal falha da nossa política industrial está na produtividade.

Como se melhora essa produtividade?

Eu falei produtividade como uma palavra síntese, que envolve várias coisas, por exemplo, melhorar o maquinário. O nosso parque industrial não é ruim, mas pode ser melhorado. Não produzimos mais carroças, me referindo àquela frase do ex-presidente Collor, mas podemos melhorar. Caberia então fazer uma política de produtividade neste ponto. Em relação à mão de obra qualificada, e precisamos muito disso, passa por educação, treinamento, por informação dos empresários, incentivo ao empreendedorismo, incentivo à pequena e média empresa. O aumento de produtividade também envolve os fornecedores que vendem para a indústria, pela eficiência no sistema de transporte, fornecimento da energia elétrica, de serviços, nos quais o Brasil está muito atrasado – em serviços, o aumento da produtividade passa por gestão, maquinário, mas sobretudo pela educação. Inovação também é um tema importante – a nossa indústria precisa inovar mais, assim como as empresas de serviços. Essa avenida de produtividade nós não temos. O Japão tem no caso da indústria e o alemão a segue à risca. O Brasil ainda não se deu conta de que, para competir com os chineses, nesta nova fase da economia mundial pós-crise de 2008, é preciso aumentar a produtividade. Quando falo Brasil, não é apenas o governo, mas a sociedade, os políticos, a elite, os formadores de opinião, que ainda não perceberam que precisamos ser um país de maior produtividade. Esse alto custo e baixa produtividade em comparação a padrões internacionais vão nos cobrar um preço. Em primeiro lugar, é uma indústria que perde potencialidade. Temos visto a indústria do vestuário perder competitividade, assim como a de bens de capital, a de eletrônicos ser dizimada, a de plástico está perdendo muita competitividade, a de papel está sofrendo uma forte contração, a indústria de calçados está sofrendo muito. Outro dia, um jornalista me perguntou como era possível exportarmos couro e não sermos competitivos em sapatos? Na primeira transformação é que vêm os custos, como encargos trabalhistas, custos tributários, o câmbio, o custo do capital para quem não tem acesso ao BNDES, entre outros. Isso significa que estamos perdendo gradativamente competitividade em setores que achávamos que, por termos a matéria prima, tínhamos o produto acabado competitivo. Nós produzimos o produto petroquímico que produz o plástico, o couro que faz o sapato, a celulose de onde vem o papel. O problema está na transformação, onde o custo é alto, dizimando a competitividade.

O empresário brasileiro, principalmente os pequenos e médios, sabem gerir os seus custos de forma a serem mais competitivos?

Quando a coisa é tão grave quanto é hoje, com o mercado crescendo tanto e o setor tão pouco, a causa é um conjunto de fatores. A gestão é um fator, mas há outros. Nós temos de ter uma preocupação maior em reduzir custos e aumentar a produtividade. Mas têm custos que os empresários não comandam, como o acesso ao capital para quem não tem acesso ao BNDES, a carga tributária elevada, os custos trabalhistas, os custos de logística, de energia elétrica, etc. Parece que eu estou chorando, mas cada um desses custos que eu falei está entre os mais altos do mundo. Se o Brasil quer ser um país desenvolvido, ele não pode se dar ao luxo de ter o custo mais alto do mundo. Isso afeta todos os setores, mas a indústria sofre a concorrência do importado.

Mesmo com tantos entraves que o senhor elencou, desde os altos custos até a falta de mão de obra qualificada, ainda assim o senhor afirma que o Brasil tem uma política industrial?

Sim, o Brasil tem uma política industrial. Isso tudo que eu comentei, a política industrial não pode cuidar. A política industrial abrange políticas ligadas especificamente ao setor. Onde eu acho que tem uma lacuna é na questão da produtividade e no custo industrial, que podem melhorar, não que estejamos tão ruins, mas pode melhorar. A nossa política industrial peca por não incentivar a questão de redução de custos e melhoria da produtividade. O maior problema está fora do chão de fábrica, fora da porteira da fazenda, fora da loja do comércio, mas que afeta todo mundo, que é o custo de se produzir no Brasil. Se o País quer ser desenvolvido, ele precisa repensar isso, pois do jeito que está fica muito difícil. A falta de competitividade já está afetando setores industriais tão inquestionáveis como o de celulose – tem gente que está preferindo produzir celulose em outros países. Neste caso, vários fatores se misturam, há problemas de inovação, de custos, de produtividade, mas também há um problema do País, que enveredou por um caminho que amontoou diversos fatores de custos, somados a um câmbio desfavorável.

O senhor comentou que a desindustrialização já ocorreu nos EUA e vem ocorrendo no Japão. Trata-se de um processo inevitável?

O Japão tem poucos recursos naturais e agrícolas. Ele fez o seu processo de desenvolvimento baseado na indústria, e agora está se desindustrializando. Digamos que nos EUA e no Japão, a indústria já cumpriu o seu papel. No Brasil, esse fenômeno é muito precoce. A desindustrialização é um processo doloroso, os americanos continuam reclamando, ainda mais com essa crise – uma parte dos problemas dos americanos foi essa excessiva ida para fora de suas empresas. Mas isso faz parte do processo quando o país alcança determinado patamar. Não é esse o caso do Brasil.

A entrada de produtos chineses vem acelerando esse processo no Brasil?

A China faz parte de um novo ciclo de desenvolvimento industrial no mundo, como foi a Inglaterra na Revolução Industrial, Estados Unidos, Alemanha, Japão. Esse processo, até os anos 80, teve a participação de vários países industrializados, mas nenhum deles muito forte – a Coreia era uma potência média –, houve um declínio dos EUA e a emergência nos últimos 25 anos da China. Esse foi o circuito dos grandes blocos de industrialização, claro que há outros países no meio.O fenômeno China é um novo ciclo industrial, mas diferente, pois é um país muito particular. Ela junta o que há de mais impulsionador no capitalismo com uma grande capacidade de monitorar e balizar, por meios não mercado, o seu desenvolvimento econômico. A China tem coisas que nem os EUA tiveram, como por exemplo uma escala de produção monstruosa e um câmbio manipulado. Ela junta fatores da sua essência – é um país gigantesco, com uma população muito grande – , com práticas de não mercado. Há outras questões menos éticas, que são práticas desleais de mercado na área de comércio internacional.

Como competir com um país com uma mão de obra quase escrava e que manipula o seu câmbio?

Não se consegue. Além da mão de obra quase escrava, a China agrega fatores de competitividade. Já não é mais verdade que a China é somente um país de mão de obra barata. Entre os países que mais investem em pesquisa e desenvolvimento, em primeiro aparece os EUA e em segundo está a China, já não é mais o Japão. A China já é uma potência industrial fora do circuito onde a mão de obra barata é o definidor de competitividade. Ela já está agregando competitividade pela tecnologia. O Brasil não pode querer competir com o avanço em P&D da China, mas temos que nos proteger um pouco do câmbio chinês, que é totalmente manipulado. Já as práticas desleais de comércio, isso deve ser coibido de fato. O que são essas práticas desleais? Por exemplo, temos um acordo com os países do Mercosul, cujos bens podem entrar no Brasil sem pagar impostos. Em alguns casos ocorre uma triangulação, em que o produto, não apenas chinês, mas também de outros países, entra primeiro em um dos países do Mercosul e depois vem para o Brasil sem pagar imposto. Isso é uma prática desleal de comércio.

Como é possível combater o câmbio manipulado da China?

Este é um ponto extremamente delicado e difícil de mensurar. O nosso valor do dólar em relação ao real há pouco tempo estava chegando na faixa de R$ 1,60. Neste valor, não tem produtividade que dê jeito, não tem redução de custos que consiga suportar um real tão valorizado. Agora, o câmbio chegou a R$ 1,85. Para alguns setores melhorou e não piorou significativamente o custo de trazer produtos de fora. Na questão do câmbio, precisamos ter o bom senso para não deixarmos o produto importado tão barato e não encarecer os nossos produtos lá fora. Da mesma forma, também não devemos deixar o câmbio chegar a R$ 3, por exemplo. A China adota uma política para manter a sua moeda subvalorizada. Acho que o Brasil não deve adotar isso, mas também não deve deixar o real supervalorizado.

O Brasil adota a política do câmbio flutuante, que varia de acordo com a entrada ou saída de dólares. O País deveria mudar essa política?

Não, mas o governo precisa ser rígido em determinadas questões. Por exemplo: a cotação do dólar chegou a R$ 1,85, mas já está a R$ 1,75, pela onda de receios por conta da crise europeia. Acho que o governo deve acender uma luz amarela e não permitir mais valorização do real.

Comércio Eletrônico na TVU, segunda-feira 26/03, às 19:30

março 22, 2012

Este blog estará presente nesta próxima segunda-feira (26/03) na TV Universitária (Canal 11) da UFPE, no Programa “Opinião Pernambuco“, às 19:30.  O tema será “Comércio Eletrônico”.

Fique ligado, pois você pode assistir também pela TVU Online, aqui!

 

Perspectivas Econômicas do TOGAF – The Open Group Architecture Framework

março 22, 2012

Perspectivas Econômicas do TOGAF – The Open Group Architecture Framework“. Este é o título da palestra que faremos amanhã, 22/03, às 9:00hs, no Mar Hotel, em Boa Viagem, na reunião do Grupo de Gestores de Tecnologias de Informação de Pernambuco- GGTI (.http://www.ggti.org.br/visao/index.php).

Environment: The Water Challenge: sharing a precious commodity

março 20, 2012

Interesting (and worrying) report of the OECD (http://bit.ly/GDA9FT):

Global water demand: Baseline scenario, 2000 and 2050 

Source: The Environmental Outlook Baseline,output from IMAGE suite of models.

Gastos com TICs, Poder de Compra e Procurement

março 19, 2012

Já está no ar a nova newsletter da Creativante, cujo título é “Gastos com TICs, Poder de Compra e Procurement “, e que você pode acessar aqui, ou aqui, no formato pdf!

A pergunta central desta newsletter é: como o governo compra inovação?

Boa leitura!

Como o governo compra inovação?

março 18, 2012

Eis aí um mistério!

Os dados disponíveis são imprecisos, mas é provável que o Brasil invista este ano algo como R$ 80,6 bilhões em TICs, dos quais o governo compra algo no entorno de 40% deste valor, ou seja, R$ 32,2 bilhões.

Mas a pergunta é: como o governo faz o seu PROCUREMENT (ou seja, as suas compras), e, de modo particular, de inovação?

Isto é o que a nova newsletter da Creativante, que sai amanhã, vai tratar!

Aguarde!

BRIGADA BRAÇO FORTE: UM PROJETO DO EXÉRCITO BRASILEIRO BASEADO EM COMPLEXOS SISTEMAS DE INFORMAÇÃO

março 15, 2012

Mais um paper internacional deste blog foi aceito (para ser apresentado na 9th CONTECSI International Conference on Information Systems and Technology Management, a ser realizada em maio, em São Paulo: http://www.tecsi.fea.usp.br/eventos/contecsi/inscricao.php)!

Desta vez, numa grande parceria com o Coronel Clayton Jones Alves da Silva, Coordenador (no CESAR- Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) do Projeto Brigada Braço Forte, do Exército Brasileiro!

Abaixo, a notícia, que saiu hoje!

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Ref.:  9th CONTECSI International Conference on Information Systems and Technology Management

On behalf of the Organizing Committee of the 9th CONTECSI, we are pleased to inform you that your paper entitled:

BRIGADA BRAÇO FORTE”: UM PROJETO DO EXÉRCITO BRASILEIRO BASEADO EM COMPLEXOS SISTEMAS DE INFORMAÇÃO

has been accepted for presentation at a Research Forum and publication.


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