Archive for julho \31\UTC 2011

O problema da valorização do real

julho 31, 2011

Excelente artigo de hoje do Prof. Afonso Celso Pastore mostrando como o governo tem se mostrado incompetente em reter a apreciação do real em razão da “pulverização” do dólar!

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31 de julho de 2011 | 0h 00
Affonso Celso Pastore – O Estado de S.Paulo

O problema da valorização do real

O governo aumentou a potência do arsenal para evitar a valorização do real, intervindo no mercado de derivativos. Exasperado contra o que chamou de especulação, resolveu taxar as posições vendidas de câmbio. Será que esse tipo de medida evitará continuidade da valorização do real?

O aumento da posição vendida de bancos, que tanto irrita o Ministro da Fazenda, é a consequência direta da intensificação das compras do Banco Central no mercado à vista, que elevam o cupom cambial. Na operação de arbitragem do cupom cambial os bancos tomam recursos no exterior à taxa Libor, que é praticamente nula, comprando o cupom cambial no Brasil. Ganham a diferença entre o cupom e a Libor, que é tanto maior quanto mais intensas forem as compras do Banco Central no mercado à vista de câmbio, o que estimula novas entradas de dólares, às quais o Banco Central reage com novas compras no mercado a vista, elevando ainda mais o cupom cambial, fechando-se o círculo. Este é um dos mecanismos que está por trás da baixa eficácia das intervenções no mercado à vista de câmbio.

Há alguns meses o governo tentou conter o aumento da posição vendida de câmbio com um recolhimento compulsório, mas o real continuou se valorizando. Antes disso já havia elevado o IOF sobre ingressos em renda fixa, sem conter a valorização. Ainda quando no início do ano o real estava um pouco acima de R$ 1,60, estendeu a incidência do IOF para ingressos de curto prazo, mas teve a surpresa de ver o real quebrar a barreira de R$ 1,60, valorizando-se ainda mais. Por que não é possível segurar o real? Será que há alguma conspiração dos especuladores?

Ninguém nega que no Brasil os juros são extremamente elevados, o que atrai capitais que ajudam a valorizar o real. Mas isso não significa: nem que esta é a principal causa da valorização; e nem que medidas com estas sustem o fortalecimento do real. Por quê?

Em um momento de lucidez o Ministro da Fazenda reconheceu que a causa mais importante da valorização do real é o enfraquecimento do dólar, que se iniciou em torno de 2002, intensificando-se a partir do anúncio do QE2, em 2010. A partir de 2010, o dólar vem se depreciando com relação a praticamente todas as moedas, inclusive o real. Por exemplo, há fortes valorizações: do peso chileno; do dólar australiano e do dólar canadense, moedas de países com taxas de juros muito mais baixas do que o Brasil. A depreciação do dólar leva, inclusive, à valorização do euro, apesar desta ser a moeda de uma área monetária enfrentando crises gravíssimas de dívida soberana, que pode desembocar em uma crise bancária, ameaçando a própria sobrevivência do euro.

O mais grave é que não há perspectivas de que esse quadro se altere em um futuro próximo, porque a depreciação do dólar é um dos caminhos para minimizar as consequências da crise de 2008 sobre a economia americana. A alavancagem excessiva das famílias nos Estados Unidos, construída nos anos em que as autoridades norte americanas acreditavam que poderiam continuar estimulando o consumo, tem que se reduzir muito relativamente aos seus níveis atuais, e isto retarda o crescimento econômico, o que requer a compensação de estímulos, sem o que o crescimento econômico não se acelera.

Por vários anos, antes de 2008, ocorreu a ilusão de que havia uma simbiose entre Estados Unidos e China, que o professor Niall Ferguson jocosamente batizou de Chimerica, segundo a qual os Estados Unidos poderiam permanentemente continuar consumido acima de seus próprios meios, estimulado por taxas de juros baixas sem que a inflação fosse um problema, porque a China exportava deflação para os Estados Unidos, e ao mesmo tempo financiava seus déficits em contas correntes com compras de títulos do tesouro. A combinação desse erro de política econômica, com a ausência de supervisão bancária levou à crise de 2008, da qual Wall Street foi rapidamente salva pela pronta ação do governo e do Federal Reserve. Mas deixou sem solução à vista o mercado imobiliário, e nem criou condições para um crescimento acelerado do consumo das famílias.

A opção inicial foi pela política fiscal expansionista com a realização de déficits públicos enormes, mas isso gera o aumento acelerado da dívida pública. Ao lado disso o Federal Reserve colocou em prática as recomendações que Bernanke havia feito para redimir o Japão da década perdida dos anos 1990, quando a alavancagem excessiva das empresas, e não das famílias, produziu a estagnação. O QE2 foi adotado, e ele deveria elevar o crescimento econômico, em parte porque deveria gerar um “efeito riqueza” que ampliaria o consumo, e em parte porque depreciaria o dólar. O “efeito riqueza” derivado do QE2 foi pequeno, e os Estados Unidos passaram a depender mais e mais do enfraquecimento do dólar.

No caso da dívida pública chegou-se ao limite que desencadeou a luta política entre republicanos e democratas, elevando o risco de um rebaixamento dos EUA por pelo menos uma agência de classificação de riscos, o que força ainda mais a depreciação do dólar. Por outro lado, embora tenha caído a probabilidade de um QE3, porque a inflação já vem crescendo, a expansão monetária nos EUA continuará elevada, devido á taxa básica de juros nula, o que favorece a continuidade do enfraquecimento do dólar. A perspectiva óbvia, em um caso como este, é a continuidade de pressões para a valorização de todas as moedas com relação ao dólar, inclusive o real.

É esta a força predominante por trás da valorização do real. O Brasil pode colocar band-aids no câmbio, mas isso não cura uma hemorragia. Nesta situação, tudo o que puder ser feito para reduzir a taxa de juros no Brasil ajuda a minorar o problema, embora não o solucione completamente. Mas extremo cuidado tem que ser tomado com a inflação, que já é muito elevada, o que me leva a insistir fortemente no óbvio: há uma única combinação de instrumentos de política econômica que teria uma eficácia muito maior neste caso, que é uma política fiscal suficientemente contracionista, fazendo com que ocorra uma contração forte da demanda agregada, permitindo trabalhar com juros reais mais baixos. O país ganharia no controle da inflação, e reduziria o estímulo ao ingresso de capitais derivado dos juros domésticos muito elevados.

Mas o governo prefere os band-aids, porque politicamente é muito mais atraente conseguir notoriedade combatendo supostos especuladores no mercado futuro de câmbio, do que tomando medidas que reduzam os gastos públicos contraindo a demanda agregada. Essa tendência se reforça porque os gastos públicos elevados aumentam a popularidade do governo perante importantes grupos de eleitores.

O dramático é que em todas as tentativas anteriores, com a imposição de limites à posição vendida de bancos ou mesmo o IOF sobre ingressos de longo e de curto prazo, o real sempre voltou a se valorizar. Isso não poderia ser surpresa, diante do fato de que é o enfraquecimento do dólar que está por trás do fortalecimento do real. A diferença é que desta vez o grau de irritação do governo contra essa valorização cresceu, abrindo as portas para intervenções muito mais pesadas, dando ao Conselho Monetário Nacional um enorme poder de fogo quando fixou a alíquota máxima do IOF em 25%.

Nas operações de mercado futuro não predominam os especuladores, e sim os que realizam operações de hedge, que devem ser preservadas, porque esta é a forma como empresas se defendem de riscos. A natureza procura o caminho da saúde rejeitando a doença, e na busca da saúde uma vítima será a BM&F, porque operações de hedge migrarão para Chicago, substituindo as operações no mercado futuro de câmbio, realizadas no Brasil, por operações em NDF realizadas no exterior. Pior para a BM&F!

Porém, é também pior para o Brasil. Ao entrar para a “guerra cambial” com armas com um elevado poder de destruição que afetam operações de hedge relevantes para a economia, mas com pouco poder de reduzir a apreciação cambial, o governo se arrisca a iniciar uma nova guerra. Nesta ele tende a elevar exageradamente os riscos e a reduzir a previsibilidade das variáveis essenciais para a tomada de decisões econômicas. Deveria fazer um esforço para agir com grande racionalidade no campo econômico, mas aparentemente tem mais dividendos políticos no curto prazo se atirar contra supostos especuladores sem, contudo, resolver o problema.

ECONOMISTA E EX-PRESIDENTE DO

BANCO CENTRAL

 

 

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China’s High-tech Exports: Myth and Reality

julho 29, 2011

Continuando nossa discussão iniciada no post anterior de que a China talvez não seja um centro de inovação, eis aqui mais uma evidência de que a China oferece mais mitos do que realidade.

Desta feita apresentamos um artigo muito interessante do National Graduate Institute for Policy Studies do Japão, escrito por  Yuqing Xing .

O paper pode ser baixado aqui e o abstract segue abaixo!

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Abstract

China’s leading position in high-tech exports is a myth created by outdated trade statistics, which are inconsistent with the trade based on global supply chains. Assembled high-tech products, made with imported key parts and components, accounted for 82% of China’s high-tech exports. Current trade statistics mistakenly credit entire values of these assembled products to China, thus greatly inflate the export value. For instance, in 2009 China’s export in the iPhone amounted US$4.6 billion, of which only 3.6% was the value added by Chinese workers; its annual export in laptop PC valued at US$52 billion, but assembly accounted for only 3% of the gross value. In addition, 83% of China’s high-tech exports was attributed to foreign invested firms, in particular Taiwanese owned companies. Taiwan-IT companies have relocated 95% of their production/assembly capacity into and transferred mainland China to a top assembler of information and communication technology, such as laptop PCs, digital cameras and all i-products.

China as an Innovation Center? Not So Fast

julho 28, 2011

Excelente artigo que saiu hoje em The Wall Street Journal sobre a China!

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BUSINESS ASIA

JULY 28, 2011

China as an Innovation Center? Not So Fast

An impressive volume of patent filings conceals serious challenges to Beijing’s R&D aspirations.

Hardly a week goes by without a headline pronouncing that China is about to overtake the U.S. and other advanced economies in the innovation game. Patent filings are up, China is exporting high-tech goods, the West is doomed. Or so goes the story line.

The reality is very different. China is indeed mounting considerable efforts on the innovation front. However, many of the pundits seem to confuse inputs with outputs.

The “inputs” for innovation are impressive. China’s R&D expenditure increased to 1.5% of GDP in 2010 from 1.1% in 2002, and should reach 2.5% by 2020. Its share of the world’s total R&D expenditure grew to 12.3% in 2010 from 5.0% in 2002, placing it second only to the U.S., whose share remained steady at 34-35%. According to UNESCO, China now employs more people in science and technology research than any other country.

At first blush, data on “outputs” also look impressive. According to the World Intellectual Property Organization, Chinese inventors filed 203,481 patent applications in 2008. That would make China the third most innovative country after Japan (502,054 filings) and the U.S. (400,769).

Yet there’s less here than meets the eye. Over 95% of the Chinese applications were filed domestically with the State Intellectual Property Office. The vast majority cover Chinese “innovations” that make only tiny changes on existing designs. In many other cases, a Chinese filer “patents” a foreign invention in China with the goal of suing the foreign inventor for “infringement” in a Chinese legal system that doesn’t recognize foreign patents.

A better measure is to look at those innovations that are recognized outside China—at patent filings or grants to China-origin inventions by the world’s leading patent offices, the U.S., the EU and Japan. On this score, China is way behind the others.

Getty Images/Huntstock

The most compelling evidence is the count of “triadic” patent filings or grants, where an application is filed with or patent granted by all three offices for the same innovation. According to the OECD, in 2008, the most recent year for which data are available, there were only 473 triadic patent filings from China versus 14,399 from the U.S., 14,525 from Europe, and 13,446 from Japan. Data for patent grants in 2010 by individual offices paint a virtually identical picture.

Starkly put, in 2010, China accounted for 20% of the world’s population, 9% of the world’s GDP, 12% of the world’s R&D expenditure, but only 1% of the patent filings with or patents granted by any of the leading patent offices outside China. Further, half of the China-origin patents were granted to subsidiaries of foreign multinationals.

Why is there such a big gap between innovation inputs and outputs? Partly it may simply be a matter of time. Innovation requires not just new efforts but also a rich stock of prior knowledge. As new players on the technology frontier, Chinese organizations will need several years to build the requisite stock of knowledge.

But other factors are also at work. For instance, processes for allocating government funds for R&D projects remain highly politicized and inefficient. Policy makers have a strong penchant for megaprojects backed by individual ministries and give R&D grants based largely on political clout and connections rather than scientific peer review.

As Yigong Shi and Yi Rao, deans of Life Sciences at Tsinghua and Peking Universities respectively, observed in a recent editorial in Science magazine, for grants ranging from tens to hundreds of millions of yuan, “it is an open secret that doing good research is not as important as schmoozing with powerful bureaucrats and their favorite experts.. . . . China’s current research culture . . . wastes resources, corrupts the spirit, and stymies innovation.”

China’s research culture also suffers heavily from a focus on quantity over quality and the use of local rather than international standards to assess and reward research productivity. The result is a pandemic of not just incrementalism but also academic dishonesty. A 2009 survey by the China Association for Science and Technology reported that half of the 30,078 respondents knew at least one colleague who had committed academic fraud. Such a culture inhibits serious inquiry and wastes resources.

China’s educational system is another serious challenge because it emphasizes rote learning rather than creative problem solving. When Microsoft opened its second-largest research lab (after Redmond, Wash.) in Beijing, it realized that while the graduates it hired were brilliant, they were too passive when it came to research inquiry. The research directors attacked this problem by effectively requiring each new hire to come up with a project he or she wanted to work on. Microsoft’s approach is more the exception than the rule among R&D labs in China, which tend to be more top-down.

Yes, China is making rapid strides in some areas such as telecommunications technology. However, on an across-the-board basis, it still has quite some distance to cover before becoming a global innovation power.

Mr. Gupta is the Michael D. Dingman Chair in Strategy and Entrepreneurship at the Smith School of Business, The University of Maryland and a Visiting Professor in Strategy at INSEAD. Ms. Wang is managing partner of the China India Institute. They are the co-authors of “Getting China and India Right”(Wiley, 2009).

Inovação e Crescimento da Produtividade

julho 25, 2011

A nova newsletter da Creativante já está no ar, com o título “Inovação e Crescimento da Produtividade“, e você pode acessá-la aqui.

Esta newsletter tem uma importância particular. Hoje em dia muito se fala sobre inovação, particularmente no Brasil, mas quase nada se constata sobre o verdadeiro impacto da inovação na economia.  Com esta newsletter damos início à discussão sobre o efetivo impacto da inovação sobre o crescimento, apontando que apesar de sua importância, sua contribuição ao crescimento econômico tem sido pequena.  Ou seja, o que mais importa para o crescimento econômico é a replicação de tecnologias existentes atrávés de investimento e expansão da força-de-trabalho.  Em resumo, investimentos que difundem as tecnologias existentes!

The Great Stagnation in the US (from Tyler Cowen)

julho 21, 2011

Eu já havia lido sobre este livro, mas como ele está recebendo “a lot of attention”, resolvi postar algo sobre ele.

Trata-se do livro intitulado “The Great Stagnation: How America Ate All The Low-Hanging Fruit of Modern History, Got Sick, and Will (Eventually) Feel Better“, que foi publicado inicialmente este ano pela Amazon.com como uma Kindle Edition (detalhes aqui), e em 09 de junho recebeu sua edição impressa.  O livro foi escrito pelo economista Tyler Cowen, que é o editor do famoso blog Marginal Revolution (http://marginalrevolution.com).

O argumento do livro é polêmico, mas é interessante.  A idéia central é que o passo das inovações nos EUA diminuiu, e que agora aquele país está num “technological plateau” (platô tecnológico) que faz com que o incremento de crescimento econômico seja mais desafiador.

Acrescento, abaixo, um vídeo de uma apresentação que o Tyler Cowen fez em maio deste ano!

Empregos nos EUA, Oportunidades no Brasil

julho 18, 2011

A nova newsletter da Creativante, cujo título é “Empregos nos EUA, Oportunidades no Brasil“,  já está no ar, e você pode acessar aqui!

Governo fala em dívida pública líquida, mas a bruta é a que importa!

julho 18, 2011

Matérias de hoje do jornal Valor Econômico confirmam nossas preocupações com a questão fiscal brasileira, manifestada na newsletter da Creativante de 04/07/2011.  Enquanto o governo federal no Brasil fala em dívida líquida do setor público, este conceito cada vez mais cai em desuso, voltando a dívida bruta a ser o verdadeiro centro das preocupações!

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Para analistas, aparente tranquilidade fiscal da dívida brasileira exige atenção

João Villaverde | De Brasília
18/07/2011

O governo federal avalia que a meta lançada pela presidente Dilma Rousseff durante a campanha no ano passado, de levar a dívida líquida a 30% do Produto Interno Bruto (PIB) ao fim de 2014, será atingida com “alguma facilidade”. Em maio, dado mais recente divulgado pelo Banco Central (BC), o endividamento líquido do setor público atingiu 39,8% do PIB, o menor valor em 15 anos – descontados, nessa conta, os seis meses em que o país esteve em recessão entre outubro de 2008 e março de 2009, quando o repique cambial excepcional, proporcionado pela saída de capitais após a eclosão da crise mundial, reduziu artificialmente a dívida.

“Estamos com a melhor situação fiscal do mundo”, afirma um integrante do alto escalão da equipe econômica do governo. A relação entre dívida e PIB cai, segundo o governo, devido à combinação entre dois fatores: por um lado, o aperto praticado na liberação de recursos proporciona queda no endividamento, e, ao mesmo tempo, o PIB cresce a taxas superiores a 4% ao ano desde 2004. “Se a situação mundial continuar como está, ou mesmo que piore um pouquinho”, afirma um integrante do governo, “cumpriremos a meta em 2014”.

Em tempos de catástrofes econômicas, provocadas pelo elevado endividamento público de países ricos, no entanto, o cenário não é tão tranquilo, dizem especialistas em contas públicas consultados pelo Valor. Segundo eles, o governo “se esquiva” da comparação com outros países por meio de um indicador que “perde o sentido” – o conceito de dívida líquida do setor público.Para Alexandre Schwartsman, sócio-diretor da recém-fundada Schwartsman & Associados e ex-diretor do Banco Central, a dívida líquida passou a perder o sentido a partir de 2009, quando o governo emitiu títulos do Tesouro com volume total de R$ 100 bilhões para financiar um empréstimo ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No ano seguinte, outros R$ 80 bilhões foram repassados da mesma forma, e neste primeiro semestre de 2011, mais R$ 30 bilhões foram transferidos do Tesouro ao BNDES.

Nessas operações, o Tesouro se endivida, ao lançar títulos públicos remunerados pela Selic, para aumentar o capital do BNDES. Como as operações do BNDES geram “lucro” ao governo, e, portanto, servem de ativo ao setor público, são deduzidos da dívida total do governo. Assim, a dívida líquida cai, mas, como há maior endividamento do governo, via novos empréstimos do Tesouro ao mercado, esse passivo só é contabilizado na dívida bruta. “É a dívida bruta que interessa ao mercado internacional, uma vez que indica realmente qual é o tamanho da dívida real do setor público”, afirma Schwartsman.

A Itália, país que se encontra no olho do furacão do mercado financeiro, conta com um endividamento bruto do setor público próximo a 120% do PIB, segundo dados da agência “Bloomberg”. Poucos meses antes, Grécia e Irlanda receberam injeções de recursos europeus por terem, respectivamente, uma relação de 150% e 96,2% da dívida bruta como proporção do PIB.

Portugal, cujo governo lançou mão de um rigoroso plano de austeridade fiscal para evitar o calote, conta com uma dívida equivalente a 93% do PIB. No Brasil, os dados mais recentes do Banco Central apontam para um endividamento bruto equivalente a 55,2% do PIB.

O cálculo da dívida bruta no Brasil, entretanto, não leva em conta as operações do Banco Central, como a manipulação do depósito compulsório dos bancos e a expansão da base monetária.

O economista Josué Alfredo Pellegrini, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor legislativo do Senado na área de política econômica, fez uma estimativa de quanto seria a dívida bruta brasileira, levando-se em conta os critérios europeus. O resultado obtido por Pellegrini demonstra que a trajetória da dívida bruta “cheia” tem sido totalmente inversa do que ocorreu nos últimos anos com a dívida líquida do setor público. Segundo Pellegrini, a dívida bruta “cheia” saltou de 65,1% do PIB, no fim de 2006, para 69,4% do PIB em março deste ano. Em igual período, a dívida líquida do setor público como proporção do PIB caiu 7,4 pontos percentuais.

“Não se trata de dizer que o Brasil é insolvente ou corre perigo de não honrar suas dívidas, como ocorre com países como Grécia ou Itália”, avalia Felipe Salto, especialista em contas públicas da Tendências Consultoria. Apenas, diz ele, “precisamos entender que o governo se preocupa com um aspecto contábil cada vez menos prático, e, ao mesmo tempo, que a dívida bruta não segue, de fato, a mesma trajetória que a dívida líquida”.

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Conceito de débito “bruto” tem sido utilizado por países em dificuldades

Nos dez anos entre o pico, de 55,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 1984, e o piso recente, de 27,9% do PIB em 1994, a dívida líquida do setor público ficou em segundo plano no noticiário econômico. O fracasso do Plano Cruzado, em novembro de 1986, lançou a economia brasileira em dois problemas: a hiperinflação e a dívida externa.

Sem demanda por títulos denominados em moeda nacional, o governo brasileiro praticamente parou de emitir dívida interna, concentrando esforços no pagamento de juros dos empréstimos tomados em bancos internacionais. Apenas depois do Plano Real e da renegociação da dívida externa, ambos em 1994, foi que a dívida interna voltou aos holofotes.

Ao atingir o novo pico, de 63% do PIB em outubro de 2002, a dívida líquida do setor público entrou em queda livre, via combinação entre elevados superávits primários e crescimento maior. A agressiva política de acumulação de reservas, no entanto, fez com que o passivo líquido se distanciasse do bruto. Isso porque, ao incrementar os ativos em mãos do Estado, as reservas foram construídas via emissão de títulos internos para financiar a compra de dólares. Assim, a dívida criada para aumentar as reservas (bem como para financiar repasses ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES) é lançada como endividamento bruto, mas, como ao mesmo tempo funcionam como “ativo” do Estado, é deduzida da conta, reduzindo, portanto a dívida líquida.

A troca de papéis entre o Brasil e os países ricos, no tocante à “crise da dívida externa”, deu força aos analistas que defendem a utilização da dívida bruta como indicador de solvência do setor público, diferente do conceito de dívida líquida, largamente utilizado no governo.

Países com graves dificuldades para honrar seu passivo com o mercado, como Grécia, Irlanda, Portugal e mesmo os Estados Unidos, caso o teto de endividamento não seja elevado pelo Congresso, utilizam como sinalizador de solvência a dívida bruta como proporção do PIB, não a líquida. (JV)

Reinhart and Rogoff: The Economy Can’t Grow With Debt

julho 14, 2011

Eis aqui um excelente artigo dos economistas Carmen M. Reinhart e Kenneth S. Rogoff sobre a dívida pública nos países desenvolvidos, publicados hoje no site da Bloomberg.  É uma visão esclarecedora dos reais problemas que estes países estão vivendo, e sobre o quanto seus crescimentos econômicos poderão ser impactados.

Mas outra coisa interessante do artigo é a ilustração do artigo, reproduzida abaixo!

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Illustration by Lenny Naar

By Carmen M. Reinhart and Kenneth S. Rogoff Jul 14, 2011 1:00 AM GMT-0300
Reinhart and Rogoff: The Economy Can’t Grow With Debt

As public debt in advanced countries reaches levels not seen since the end of World War II, there is considerable debate about the urgency of taming deficits with the aim of stabilizing and ultimately reducing debt as a percentage of gross domestic product.

Our empirical research on the history of financial crises and the relationship between growth and public liabilities supports the view that current debt trajectories are a risk to long-term growth and stability, with many advanced economies already reaching or exceeding the important marker of 90 percent of GDP. Nevertheless, many prominent public intellectuals continue to argue that debt phobia is wildly overblown. Countries such as the U.S., Japan and the U.K. aren’t like Greece, nor does the market treat them as such.

Indeed, there is a growing perception that today’s low interest rates for the debt of advanced economies offer a compelling reason to begin another round of massive fiscal stimulus. If Asian nations are spinning off huge excess savings partly as a byproduct of measures that effectively force low- income savers to put their money in bank accounts with low government-imposed interest-rate ceilings — why not take advantage of the cheap money?

Although we agree that governments must exercise caution in gradually reducing crisis-response spending, we think it would be folly to take comfort in today’s low borrowing costs, much less to interpret them as an “all clear” signal for a further explosion of debt.

Changing Interest Rates

Several studies of financial crises show that interest rates seldom indicate problems long in advance. In fact, we should probably be particularly concerned today because a growing share of advanced country debt is held by official creditors whose current willingness to forego short-term returns doesn’t guarantee there will be a captive audience for debt in perpetuity.

Those who would point to low servicing costs should remember that market interest rates can change like the weather. Debt levels, by contrast, can’t be brought down quickly. Even though politicians everywhere like to argue that their country will expand its way out of debt, our historical research suggests that growth alone is rarely enough to achieve that with the debt levels we are experiencing today.

While we expect to see more than one member of the Organization for Economic Cooperation and Development default or restructure their debt before the European crisis is resolved, that isn’t the greatest threat to most advanced economies. The biggest risk is that debt will accumulate until the overhang weighs on growth.

Historical Precedents

At what point does indebtedness become a problem? In our study “Growth in a Time of Debt,” we found relatively little association between public liabilities and growth for debt levels of less than 90 percent of GDP. But burdens above 90 percent are associated with 1 percent lower median growth. Our results are based on a data set of public debt covering 44 countries for up to 200 years. The annual data set incorporates more than 3,700 observations spanning a wide range of political and historical circumstances, legal structures and monetary regimes.

We aren’t suggesting there is a bright red line at 90 percent; our results don’t imply that 89 percent is a safe debt level, or that 91 percent is necessarily catastrophic. Anyone familiar with doing empirical research understands that vulnerability to crises and anemic growth seldom depends on a single factor such as public debt. However, our study of crises shows that public obligations are often hidden and significantly larger than official figures suggest.

Creative Accounting Devices

In addition, off-balance sheet guarantees and other creative accounting devices make it even harder to assess the true nature of a country’s debt until a crisis forces everything out into the open. (Just think of the giant U.S. mortgage lenders Fannie Mae and Freddie Mac, whose debt was never officially guaranteed before the 2008 meltdown.)

There also is the question of how broad a measure of public debt to use. Our empirical work concentrates on central- government obligations because state and local data are so limited across time and countries, and government guarantees, as noted, are difficult to quantify over time. (Until we developed our data set, no long-dated cross-country information on central government debt existed.) But state and local debt are important because they so frequently trigger federal government bailouts in a crisis. Official figures for state debts don’t include chronic late payments (arrears), which are substantial in Illinois and California, for example.

Public and Private Debt

Indeed, it isn’t unusual for governments to absorb large chunks of troubled private debt in a crisis. Taking this into account, chart 1, attached, shows the extraordinarily high level of overall U.S. debts, public and private.

In addition to ex-ante or ex-post government guarantees and other forms of “hidden debts,” any discussion of public liabilities should take into account the demographic challenges across the industrialized world. Our 90 percent threshold is largely based on earlier periods when old-age pensions and health-care costs hadn’t grown to anything near the size they are today. Surely this makes the burden of debt greater.

There is a growing sense that inflation is the endgame to debt buildups. For emerging markets that has often been the case, but for advanced economies, the historical correlation is weaker. Part of the reason for this apparent paradox may be that, especially after World War II, many governments enacted policies that amounted to heavy financial repression, including interest- rate ceilings and non-market debt placement. Low statutory interest rates allowed governments to reduce real debt burdens through moderate inflation over a sustained period. Of course, this time could be different, and we shouldn’t entirely dismiss the possibility of elevated inflation as the antidote to debt.

Extremely Rare

Those who remain unconvinced that rising debt levels pose a risk to growth should ask themselves why, historically, levels of debt of more than 90 percent of GDP are relatively rare and those exceeding 120 percent are extremely rare (see attached chart 2 for U.S. public debt since 1790). Is it because generations of politicians failed to realize that they could have kept spending without risk? Or, more likely, is it because at some point, even advanced economies hit a ceiling where the pressure of rising borrowing costs forces policy makers to increase tax rates and cut government spending, sometimes precipitously, and sometimes in conjunction with inflation and financial repression (which is also a tax)?

Even absent high interest rates, as Japan highlights, debt overhangs are a hindrance to growth.

The relationship between growth, inflation and debt, no doubt, merits further study; it is a question that cannot be settled with mere rhetoric, no matter how superficially convincing.

In the meantime, historical experience and early examination of new data suggest the need to be cautious about surrendering to “this-time-is-different” syndrome and decreeing that surging government debt isn’t as significant a problem in the present as it was in the past.

(Carmen M. Reinhart is a senior fellow at the Peterson Institute for International Economics in Washington. Kenneth S. Rogoff is a professor of economics at Harvard University. They are co-authors of “This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly.” The opinions expressed are their own.)

U.S. Total Trade Surges to New Record High in May

julho 13, 2011

Post de segunda-feira do Prof. Mark Perry (http://mjperry.blogspot.com)!

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U.S. Total Trade Surges to New Record High in May

 

 

Today’s monthly trade report showing an increase in America’s current account deficit to $50.2 billion in May was accompanied by the typical alarming media headlines such as: “U.S. Trade Gap Soars to 31-Month High in May,” “U.S. Trade Deficit Jumped in May,”and “U.S. May Trade Gap Widens to $50.2 Billion.”
Here’s what probably won’t get widely reported:
1.  The total volume of U.S. international trade activity (exports + imports) reached an all-time record high in May (not adjusted for inflation) of almost $400 billion, slightly higher than the previous record of $398 billion in July 2008 (see top chart above).  Compared to the recession-related, cyclical low of $277 billion of total trade activity in May 2009, there has been a 44.5% increase in U.S. trade in just two years, as the U.S. world economies have recovered and our trade level has “surged” and “jumped” to a record high.
2.  Despite a slight dip in exports from April, the May volume of exports ($174.86 billion) was the second-highest monthly export volume in history (not adjusted for inflation), a further sign that a worldwide economic recovery, along with a cheap dollar, have led to a “surge” and “jump” in demand for U.S. products (see bottom chart above).
Related: Cato’s Dan Griswold recently wrote in a Barron’s article about the political and media obsession with the U.S. “trade deficit,” and the underlying assumption that imports are “bad” and exports are “good”:
“Much of what we import doesn’t displace domestic production so much as complement it. Imports fuel American industry by providing the raw materials, intermediate inputs and capital machinery our producers need to compete. Competition from imports spurs innovation, cost containment, and productivity gains. Lower prices for imported consumer goods allow households to spend more on home-grown services.
The dollars we spend on imports quickly return to buy U.S. assets. In 2010, our trade deficit in goods of $647 billion was exactly offset by our trade surplus in services and investment income and our large capital surplus—the amount of U.S. assets, including Treasury bonds, purchased by foreigners, minus the foreign assets purchased by Americans. The grand balance of U.S. international transactions last year, as in every year, was zero.
Politicians obsessed with the trade balance should give up the goal of promoting exports over imports. The aim of U.S. trade policy should be to maximize the freedom of Americans to buy and sell in global markets for mutual gain, whatever the mix of goods, services and assets we freely choose to trade.”

Geração de empregos nos EUA: o quê isto tem a ver com o Brasil!

julho 11, 2011

Saiu a nova newsletter da Creativante, intitulada “Geração de empregos nos EUA: o quê isto tem a ver com o Brasil!“, que você pode acessar aqui!

Trata-se de uma série que irá discutir as novas oportunidades que poderão se abrir para a geração de emprego tanto nos EUA quanto no Brasil!


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