Mídia e Democracia Deliberativa (final)

Que tipo de revolução ?”

Neste último capítulo desta interessante pesquisa sobre Nova Mídia, realizada em 2006 pela revista The Economist, o sub-título, que é resposta à própria pergunta acima, é conclusivo: “Ambas boa e ruim-mas é muito cedo para dizer em que proporções“. 

Como uma regra, algumas pessoas, como os Jacobinos, tendem a ser mais entusiastas sobre revoluções do que outros, tais como os monarcas.  Outra regra razoavelmente confiável é que revoluções abruptas o suficiente para serem associadas com um ano em especial (1642, 1789, 1848, 1917), tendem a causar problemas, mas raramente trazem mudanças duradouras.  Em contraste, revoluções graduais o suficiente para serem associadas a um nome (Renascença, Reforma, Revolução Industrial) frequentemente têm efeitos duradouros.  Uma terceira regra, ou hipótese, deve ser que revoluções parecem nunca ser inteiramente para melhor ou para pior, mas alguma coisa que combine ambos tipos.

Esta pesquisa, segundo seus autores, argumentou que a sociedade está nas fases iniciais do que parece ser uma revolução na mídia numa escala daquela que foi lançada por Gutemberg em 1448.  Isto convida a fazer comparações.  Há os jacobinos e os monarcas em ambas revoluções.  Na primeira os jacobinos foram, por seu turno, impressores, publicitários, Protestantes e escritores; na atual revolução, os jacobinos tendem a ser aqueles blogueiros, vlogueiros e podcasters que aportam pelo sangue do odioso “MSM” (mainstream media- mídia dominante).  Para os monarcas, a primeira revolução tinha papas, monastérios e a coisa real; a revolução de hoje tem, e bem, a MSM.  Ambas revoluções estão firmemente na categoria de gradualistas, e sem um nome/ano.

Isto traz benefícios e danos.  A revolução de Gutemberg sem dúvidas tinha enormes efeitos democráticos.  Possibilitou que populações inteiras lessem a Bíblia na sua própria língua, liberando elas dos cleros latinos que as mantinham em servidão supersticiosa.  Além disso, as pessoas obtinham notícias dos mais longínquos rincões do mundo; uma das coisas que mais impressionaram Alexis de Tocqueville  durante suas viagens através dos EUA, em 1931, foi que mesmo famílias nas fronteiras da remota Michigan tinham jornais semanais entregues nas suas portas.  E o dramático baixo custo de disseminar a palavra escrita, permitiu que muito mais pessoas se expressassem criativamente.

Cada um destes benefícios parece ter tido também um lado obscuro.  A disponibilidade de textos religiosos no vernacular levou aos movimentos liberalistas e fundamentalistas, e indiretamente às guerras religiosas.  A emergência da expressão textual produziu não somente clássicos, mas também pornografia e propaganda.  A imprensa reproduziu também “Mein Kampf” (uma auto-biografia de Hitler fazendo divulgação da ideologia nazista) tão acuradamente quanto o Evangelho.

Inferno ou Céu

Contra este pano-de-fundo, os grandes pensadores sobre a revolução da mídia de hoje tendem a guinar em direção a extremos de otimismo e pessimismo.  Frequentemente os alinhamentos são surpreendentes.  Por exemplo, Michael Moritz, um capitalista de risco que se tornou famoso por descobrir Yahoo! e Google, tem um forte veio pessimista.  Ele teme a “amplificação da Internet soapbox” (soapbox é uma referência a quem faz discursos na rua, trepado numa caixa de sabão) e imagina “que papel a mídia gerada pelo usuário teria tido em 1931, em Munique, como teria sido fácil broadcast (irradiar) a mensagem; eu acho que os nazistas teriam poder mais rápido”.

Paul Saffo, um futurologista e um dos mais entusiastas tecnófilos, também olha para o lado negativo.  “Cada um de nós pode criar nossa própria mídia cercada de um florido jardim que nos circunda  com informação confortadora e confirmadora e que cala incondicionalmente qualquer coisa que conflite com nossa visão de mundo”, diz ele.  “Isto é uma dinamite social”, e pode levar à “erosão do povo intelectual que mantém a sociedade junta … Nós arriscamos a nos amontoar em tribos definidas por preconceitos compartilhados”.

Agora os otimistas: Lee Raine, Diretor do Pew Internet & American Life Project, uma fundação de pesquisa, acredita que “as pessoas se tornarão não menos, mas mais inteiradas dos diferentes argumentos à medida que elas se tornem mais usuários da Internet, “porque visões contraditórias estão a um hiperlink de distância”.  Uma pesquisa de Pew parece confirmar esta visão.  O Sr. Anderson, de “The Long Tail” (livro a Cauda Longa) diz que a opinião é um mercado, e que os mercados funcioanm quando você tem liquidez.  “Liquidez é exatamente o que a mídia participativa oferece”.

Algumas pessoas se preocupam sobre o que a nova mídia fará não somente para a Democracia, mas também aos cérebros, pensamentos, gramática e medidas de atenção.  Estas preocupações usualmente surgem em encontros de adolescentes no seus habitat nativo – i.e., em frente das telas com simultâneas linhas de instant-messaging (“cu2nite bfz4evr” – traduzindo do internetês inglês: “vejo você à noite e melhores amigos para sempre”), , além de iTunes e um vídeo-game rodando ao mesmo tempo, blogs no ar, e dever-de-casa numa pequena janela no lado direito inferior da tela.

Outros não estão preocupados.  Stephen Johnson, autor do livro “Everything Bas is Good for You”, argumenta que muitas coisas sobre a cultura da nova mídia que assusta as gerações dos mais velhos torna as gerações mais jovens mais espertas, porque a mídia participativa treina as crianças desde cedo a sifonar e descatar abarrotamentos, daí “aumentando nossas habilidades cognitivas, e não silenciando sobre elas”.

Linda Stone, uma ex-executiva tanto da Apple quanto da Microsoft e agora uma consultora, argumenta que a aflição com a “contínua atenção parcial” é de fato um indicativo de qualidade da era que está acabando, e não aquilo que está começando.  Nas últimas duas décadas, acha ela, muitas pessoas se sentiram transbordadas e ansiosas, constantemente temerosas que elas estivessem perdendo oportunidades sociais se elas se concentrassem em qualquer coisa.  Isto está produzindo agora sua própria reação, como ela defende, porque como pessoas “acostumadas com proteção e conexões com significado, e com qualidade sobre quantidade”, elas estão “descobrindo o prazer da focalização”.

Muitas companhias de mídia entendem isso, diz ela.  À medida que Google acalma o caos da web com uma página branca e limpa, outras companhias estão trabalhando em tecnologias filtradoras que possam – contra-intuitivamente, talvez- fazer a era da mídia participativa mais serena que a era da mídia de massa.

A conclusão honesta (de The Economist, e com a qual este blog concorda), é claro, é que ninguém sabe se a era da mídia participativa será, no balanço, boa ou ruim.  Tal como na maioria das revoluções, é uma questão de ênfase.  De modo geral, as pessoas que têm fé na democracia dão boas vindas à mídia participativa, enquanto que as pessoas que têm reservas irão ter nostalgia das top-down certainties (certezas de cima-para-baixo) da mídia de massa.  Joseph de Maistre, um conservador que viveu a Revolução Francesa, disse que “cada país tem o governo que merece”.  Na era vindoura, mais que nunca, cada sociedade terá a mídia que merece.

E com estas palavras chegamos ao fim desta interessante jornada por esta surpreendente pesquisa de The Economist.  Aprendemos muito com ela, esperamos que você leitor também tenha sentido o mesmo.

Quanto ao que nos motivou a produzí-la, ou seja, examinar, mesmo que superficialmente e sem os rigores de uma análise acadêmica, a hipótese da fragmentação lançada por Habermas, vista no primeiro post desta série (do dia 06/03/07), a saber: “afinal, será que a grande explosão da Internet, como um fenômeno de comunicação sem precedentes em escala planetária, ao invés de nos aproximar como cidadãos em uma nova forma, democrática, de deliberação, está mesmo nos conduzindo a uma fragmentação dessa possibilidade ?“, nós assumimos uma postura que se alinha com a da revista The Economist: “ainda é muito cedo para saber !”  E como acadêmicos, podemos finalizar dizendo: “further research is needed !” (é necessário pesquisar mais !).

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