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Mídia e Democracia Deliberativa (final)

março 28, 2007

Que tipo de revolução ?”

Neste último capítulo desta interessante pesquisa sobre Nova Mídia, realizada em 2006 pela revista The Economist, o sub-título, que é resposta à própria pergunta acima, é conclusivo: “Ambas boa e ruim-mas é muito cedo para dizer em que proporções“. 

Como uma regra, algumas pessoas, como os Jacobinos, tendem a ser mais entusiastas sobre revoluções do que outros, tais como os monarcas.  Outra regra razoavelmente confiável é que revoluções abruptas o suficiente para serem associadas com um ano em especial (1642, 1789, 1848, 1917), tendem a causar problemas, mas raramente trazem mudanças duradouras.  Em contraste, revoluções graduais o suficiente para serem associadas a um nome (Renascença, Reforma, Revolução Industrial) frequentemente têm efeitos duradouros.  Uma terceira regra, ou hipótese, deve ser que revoluções parecem nunca ser inteiramente para melhor ou para pior, mas alguma coisa que combine ambos tipos.

Esta pesquisa, segundo seus autores, argumentou que a sociedade está nas fases iniciais do que parece ser uma revolução na mídia numa escala daquela que foi lançada por Gutemberg em 1448.  Isto convida a fazer comparações.  Há os jacobinos e os monarcas em ambas revoluções.  Na primeira os jacobinos foram, por seu turno, impressores, publicitários, Protestantes e escritores; na atual revolução, os jacobinos tendem a ser aqueles blogueiros, vlogueiros e podcasters que aportam pelo sangue do odioso “MSM” (mainstream media- mídia dominante).  Para os monarcas, a primeira revolução tinha papas, monastérios e a coisa real; a revolução de hoje tem, e bem, a MSM.  Ambas revoluções estão firmemente na categoria de gradualistas, e sem um nome/ano.

Isto traz benefícios e danos.  A revolução de Gutemberg sem dúvidas tinha enormes efeitos democráticos.  Possibilitou que populações inteiras lessem a Bíblia na sua própria língua, liberando elas dos cleros latinos que as mantinham em servidão supersticiosa.  Além disso, as pessoas obtinham notícias dos mais longínquos rincões do mundo; uma das coisas que mais impressionaram Alexis de Tocqueville  durante suas viagens através dos EUA, em 1931, foi que mesmo famílias nas fronteiras da remota Michigan tinham jornais semanais entregues nas suas portas.  E o dramático baixo custo de disseminar a palavra escrita, permitiu que muito mais pessoas se expressassem criativamente.

Cada um destes benefícios parece ter tido também um lado obscuro.  A disponibilidade de textos religiosos no vernacular levou aos movimentos liberalistas e fundamentalistas, e indiretamente às guerras religiosas.  A emergência da expressão textual produziu não somente clássicos, mas também pornografia e propaganda.  A imprensa reproduziu também “Mein Kampf” (uma auto-biografia de Hitler fazendo divulgação da ideologia nazista) tão acuradamente quanto o Evangelho.

Inferno ou Céu

Contra este pano-de-fundo, os grandes pensadores sobre a revolução da mídia de hoje tendem a guinar em direção a extremos de otimismo e pessimismo.  Frequentemente os alinhamentos são surpreendentes.  Por exemplo, Michael Moritz, um capitalista de risco que se tornou famoso por descobrir Yahoo! e Google, tem um forte veio pessimista.  Ele teme a “amplificação da Internet soapbox” (soapbox é uma referência a quem faz discursos na rua, trepado numa caixa de sabão) e imagina “que papel a mídia gerada pelo usuário teria tido em 1931, em Munique, como teria sido fácil broadcast (irradiar) a mensagem; eu acho que os nazistas teriam poder mais rápido”.

Paul Saffo, um futurologista e um dos mais entusiastas tecnófilos, também olha para o lado negativo.  “Cada um de nós pode criar nossa própria mídia cercada de um florido jardim que nos circunda  com informação confortadora e confirmadora e que cala incondicionalmente qualquer coisa que conflite com nossa visão de mundo”, diz ele.  “Isto é uma dinamite social”, e pode levar à “erosão do povo intelectual que mantém a sociedade junta … Nós arriscamos a nos amontoar em tribos definidas por preconceitos compartilhados”.

Agora os otimistas: Lee Raine, Diretor do Pew Internet & American Life Project, uma fundação de pesquisa, acredita que “as pessoas se tornarão não menos, mas mais inteiradas dos diferentes argumentos à medida que elas se tornem mais usuários da Internet, “porque visões contraditórias estão a um hiperlink de distância”.  Uma pesquisa de Pew parece confirmar esta visão.  O Sr. Anderson, de “The Long Tail” (livro a Cauda Longa) diz que a opinião é um mercado, e que os mercados funcioanm quando você tem liquidez.  “Liquidez é exatamente o que a mídia participativa oferece”.

Algumas pessoas se preocupam sobre o que a nova mídia fará não somente para a Democracia, mas também aos cérebros, pensamentos, gramática e medidas de atenção.  Estas preocupações usualmente surgem em encontros de adolescentes no seus habitat nativo – i.e., em frente das telas com simultâneas linhas de instant-messaging (“cu2nite bfz4evr” – traduzindo do internetês inglês: “vejo você à noite e melhores amigos para sempre”), , além de iTunes e um vídeo-game rodando ao mesmo tempo, blogs no ar, e dever-de-casa numa pequena janela no lado direito inferior da tela.

Outros não estão preocupados.  Stephen Johnson, autor do livro “Everything Bas is Good for You”, argumenta que muitas coisas sobre a cultura da nova mídia que assusta as gerações dos mais velhos torna as gerações mais jovens mais espertas, porque a mídia participativa treina as crianças desde cedo a sifonar e descatar abarrotamentos, daí “aumentando nossas habilidades cognitivas, e não silenciando sobre elas”.

Linda Stone, uma ex-executiva tanto da Apple quanto da Microsoft e agora uma consultora, argumenta que a aflição com a “contínua atenção parcial” é de fato um indicativo de qualidade da era que está acabando, e não aquilo que está começando.  Nas últimas duas décadas, acha ela, muitas pessoas se sentiram transbordadas e ansiosas, constantemente temerosas que elas estivessem perdendo oportunidades sociais se elas se concentrassem em qualquer coisa.  Isto está produzindo agora sua própria reação, como ela defende, porque como pessoas “acostumadas com proteção e conexões com significado, e com qualidade sobre quantidade”, elas estão “descobrindo o prazer da focalização”.

Muitas companhias de mídia entendem isso, diz ela.  À medida que Google acalma o caos da web com uma página branca e limpa, outras companhias estão trabalhando em tecnologias filtradoras que possam – contra-intuitivamente, talvez- fazer a era da mídia participativa mais serena que a era da mídia de massa.

A conclusão honesta (de The Economist, e com a qual este blog concorda), é claro, é que ninguém sabe se a era da mídia participativa será, no balanço, boa ou ruim.  Tal como na maioria das revoluções, é uma questão de ênfase.  De modo geral, as pessoas que têm fé na democracia dão boas vindas à mídia participativa, enquanto que as pessoas que têm reservas irão ter nostalgia das top-down certainties (certezas de cima-para-baixo) da mídia de massa.  Joseph de Maistre, um conservador que viveu a Revolução Francesa, disse que “cada país tem o governo que merece”.  Na era vindoura, mais que nunca, cada sociedade terá a mídia que merece.

E com estas palavras chegamos ao fim desta interessante jornada por esta surpreendente pesquisa de The Economist.  Aprendemos muito com ela, esperamos que você leitor também tenha sentido o mesmo.

Quanto ao que nos motivou a produzí-la, ou seja, examinar, mesmo que superficialmente e sem os rigores de uma análise acadêmica, a hipótese da fragmentação lançada por Habermas, vista no primeiro post desta série (do dia 06/03/07), a saber: “afinal, será que a grande explosão da Internet, como um fenômeno de comunicação sem precedentes em escala planetária, ao invés de nos aproximar como cidadãos em uma nova forma, democrática, de deliberação, está mesmo nos conduzindo a uma fragmentação dessa possibilidade ?“, nós assumimos uma postura que se alinha com a da revista The Economist: “ainda é muito cedo para saber !”  E como acadêmicos, podemos finalizar dizendo: “further research is needed !” (é necessário pesquisar mais !).

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Democracia Deliberativa: o futuro da História !

março 27, 2007

Este é o título do meu artigo de hoje no blog do Jornal Folha de Pernambuco.  Para aqueles interessados, basta dar um clique aqui !

Mídia e Democracia Deliberativa (8)

março 27, 2007

“The gazillion-dollar question” (o termo gazillion não existe, mas foi escolhido para representar algo mais que million, billion, trillion, quadrillion, quintillion, sextillion, septillion, octillion, novillion, decillion, este último sendo da ordem de 1.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000)

Logo, o que é uma companhia de mídia ? Eis aí a pergunta de tanto valor que este sétimo capítulo da pesquisa Nova Mídia de The Economist se pergunta. Por suas primeiras poucas décadas na indústria da mídia – na CBS, daí Walt Disney, daí Warner Brothers, onde ele foi presidente e co-chefe executivo – Terry Semel sentiu de perto o que as companhias de mídia eram. Ele as estava gerenciando, depois de tudo. Aí, em 2001, ele deixou Hollywood e foi para o Vale do Silício para ser o novo chefe do Yahoo!, o maior portal da Internet no mundo. Um auto-reconhecido tecnófobo que mal sabia como usar seu e-mail, o Sr. Semel de repente se achou em encontros com turmas de 23 anos de idade. Ele já tinha a ambição de tornar o Yahoo! Num arquétipo de uma “companhia de mídia do século 21”, mas, de repente, ele não estava tão certo do que isto significava.

O Sr. Semel passou os últimos cinco anos se educando, aconselhando-se com conselheiros como suas próprias filhas, de 24, 19 e 13 anos. A primeira faz muita coisa na Internet, a segunda faz tudo na Internet, e a terceira “vive na Internet” e tem tantos aparelhos quanto o Sr. Semel, que tem um sotaque novayorquino e um tipo de humor que o acompanha, que fica pensando se esta última está comercializando. Elas o ajudaram a entender algumas coisas.

A Internet “é uma mudança muito maior do que a chegada da televisão” no século 20, diz o Sr. Semel. No passado, “alguém decidia que as notícias iriam sair às 11:00 hs da noite; as pessoas, como minha mulher, nunca assistiam as notícias, porque ela nunca ficou até tão tarde. Todos nós crescemos quando alguém era o programador”. Esta é a mudança número 1. Para o Sr. Semel isto significava que Yahoo! Deveria fazer mais do que prover tecnologia. “Nós decidimos abrir o Yahoo!, de modo que qualquer pessoa usando (suas páginas personalizadas) MyYahoo! pudessem instantaneamente ir para qualquer lugar que elas desejassem ir, “mesmo que isto levasse para as páginas web dos rivais. Esta credibilidade, pensa ele, manterá os usuários voltando para um mais “aprofundado engajamento”. À medida que mais pessoas gastassem mais tempo nas páginas Yahoo! – com notícias, blogs, e-mail, grupos de chats, sites de música e fotos, e por aí vai – seja como seu destino final, ou como parada de uma jornada, Yahoo! poderia colocar mais e melhor propaganda na frente delas.

A mudança número 2, diz o Sr. Semel, é que – ao contrário da televisão, diz – “você não precisa de hits”. Muitas pequenas audiências são tão boas para os propagandistas quanto poucas grandes audiências, e certamente pode ser melhor. Isto tem grande implicação para o conteúdo, tornando-a em um longo continuum – do profissional ao amador, do blockbuster ao nicho de sub-cultura. Chris Anderson da revista Wired chama esta distribuição estatística esticada de “the long tail” (a cauda longa). No seu livro com o mesmo título, o Sr. Anderson argumenta que a economia da velha mídia, que é viesada em direção aos hits do topo desta distribuição, está sendo trocada pela economia da nova mídia, que permite a criação e o consumo ao longo da inteireza de uma cauda longa de conteúdo.

Yahoo!, diz o Sr. Semel, irá, portanto, estar feliz por mixar o conteúdo profissional e o conteúdo gerado pelo usuário, não importando quão pequeno for a sua potencial audiência, em suas páginas. A direção geral, no entanto, é em direção para as coisas geradas pelos usuários.

Onde isso leva ? “Vai parecer mais mais e mais como uma bolsa de valores”, diz o Sr. Semel. Uma troca, que é, de usuários que “oferecem” (criam) e “fazem lances” de conteúdo (busca, navegação, compartilhamento, prazer). E uma bolsa para propagandistas, que fazem lances uns contra os outros para ter seus links (conexões) patrocinados colocados em frente destes usuários.

O restante do capítulo lida com uma discussão de natureza semântica sobre o que, afinal, é uma companhia de mídia, já que novas empresas, especialmente como o Google, que já se tornou a mais valiosa companhia de mídia do mundo, estão dominando a nova cena midiática global.

Mídia e Democracia Deliberativa (7)

março 26, 2007

Maravilhas do metaverso

“Um mundo de fantasia onde as pessoas fazem seus próprios filmes”. Esta é a mensagem deste sexto capítulo da pesquisa Nova Mídia de The Economist. “Vamos construir realmente um balanço legal e ver se nós podemos conquistar alguém para sentar nele”, disse Philip Rosedale. Uns poucos cliques depois, há um balanço, e um bastante engenhoso. Espectadores se juntam para assistir. Uma, chamada “mermaid”, declina em sentar no balanço, mas uma outra, chamada “ninja”, junta-se e testa por um pouco. Então um dragão chega e é tão maravilhosamente esculpido que todo mundo se espanta.

Tecnicamente, tudo isto está acontecendo não na vida real, mas no Second Life, um “metaverso” (de universo metafísico) criado pelo Linden Lab, uma empresa de Internet de San Francisco, nos EUA. O Sr. Rosedale, seu fundador, diz que “Second Life não é um vídeo game mas um lugar onde as pessoas fazem coisas”. Isto é difícil de imaginar até que se veja, mas logo instantaneamente viciador.

As pessoas que acessam Second Life criam um “avatar” (isto é, uma extensão on-line delas próprias). Como avatars, elas se misturam, vão a festas, criam o que elas vestem e dirigem, constroem as casas onde elas moram, pintam quadros e compõem música.

O Second Life não é separado da vida real como se poderia esperar. Larry Lessig, um autor do mundo real, recentemente escreveu um livro falado no Second Live, e vários avatars apareceram. Pessoas com copyright na vida real que criaram coisas no Second Life. Os avatars comercializam suas criações em “Linden dólares”, conversíveis ao dólar real, os quais têm (tinham em 2006) um volume de giro de US$ 4 milhões mensais. Uma usuária, Anshe Chung, paga Linden Lab o equivalente a US$ 200 mil por ano para comprar terra no Second Life. Sra. Chung teve um lucro por desenvolver sua terra em comunidade residencial (tais como “Hanzhou”, “Emeral Island”, e por aí vai) e cobrou aluguel de avatars. “É o mais puro modo de lucrar com criatividade”, diz o Sr. Rosedale.

Várias coisas criadas no Second Life são exportadas para o mundo real, como moda, sons musicais, e outros. Um usuário, Nathar Keir (cujo avatar é chamado Kermitt Quirk) criou um jogo on-line multi-usuários chamado Tringo, que parecido com o bingo, mas muito mais engraçado. Tringo começou como um jogo dentro do jogo, mas tomou vida própria fora do Second Life.

Outros avatars criaram câmeras e estão filmando o que acontece em Second Life. Com efeito, os avatars se tornaram atores para outros avatars que se tornaram diretores. Estes novos diretores podem postar seus filmes para sites da web na vida real (o “real” está se tornando um conceito escorregadio nos dias de hoje). “Você pode ser o próximo Coppola aqui”, diz o Sr. Rosedale, à medida que ele assiste um destes filmes, em que um cowboy está se dirigindo a um saloon e um duelo está para emergir. “Second Life reduz o custo de filmagem de um filme a quase zero”.

Second Life abriu em 2003 e é agora (2006) habitado por 100.000 pessoas em todo o mundo (ainda um número pequeno comparado com os gigantes do vídeo-game). Ao contrário de gerações mais antigas de vídeo-games, que apelaram principalmente para grupos demográficos estreitos, Second Life é popular tanto com mulheres quanto com homens, e com pessoas de idade média e adolescentes. Se há uma tendência, diz Sr. Rosedale, é talvez que o Second Life desempenha melhor em lugares com clima ruim, com banda larga rápida e opções de entretenimento pouco atrativas. Ele considera os subúrbios britânicos um mercado excelente para crescimento.

Em tempo, os metaverses podem conturbar a economia da indústria de produção de filmes. Philip Evans, do Boston Consulting Group, estima que Linden Lab investiu (até 2006) algo como US$ 25 milhões no ambiente Second Life. Mas como 90% do conteúdo são criados pelos jogadores, calcula Evans, isto funciona como algo em torno de um investimento total de US$ 250 milhões, o que traz para Second Life os orçamentos dos blockbusters de Hollywood. “Os valores de produção são espantosos”, diz o Sr. Evans. O potencial desta ruptura com Hollywood, ele acha, “pode ser o prenúncio de algo bem maior”.

Mídia e Democracia Deliberativa (6)

março 21, 2007

Heard on the street” (Ouviu na rua)

O quinto capítulo da pesquisa Nova Mídia de The Economist tem o seguinte sub-título: “Podcasting vai mudar o rádio, e não matá-lo”.  As palavras blog e wiki já constavam dos dicionários em 2004 quando Adam Curry, um ex apresentador da MTV, usou sua celebridade e as características tecnológicas de blogging para popularizar uma nova grande coisa: “podcasting” (que deu a ele um nome apelido, o “pai do pod”).

O “pod” vem do produto Ipod da Apple, um tocador de música móvel da moda, e que foi um toque de sorte do marketing da Apple, que não tinha nada inicialmente a ver com podcasting.  O “casting” vem de broadcasting, que significa enviar um sinal de rádio para uma população inteira em uma área geográfica particular numa hora particular.   Um tanto quanto confuso, já que broadcasting é o oposto de podcasting.

Ele funciona da seguinte maneira.  Um podcaster grava alguma coisa -qualquer coisa desde música até divagações filosóficas, notícias profissionais ou qualquer barulho- num computador com a ajuda de um microfone, a aí envia (posts) este arquivo de áudio para a Internet.  Lá, as pessoas podem ouvir o tal arquivo e, mais importante, subscrever para um “feed”  (alimentador digital) do mesmo podcaster, de modo que todos os novos arquivos de áudio daquela fonte seja automaticamente puxado tão rápido quanto ele apareça (ou seja publicado).  A qualquer momento que os ouvintes de seus Ipods ou outros tocadores de música sejam carregados, os feeds que chegaram nos computadores são transferidos para os aparelhos móveis.  As pessoas podem ouvir nos seus carros, enquanto estão praticando algum exercício (jogging), ou em qualquer lugar ou hora de sua conveniência.

O crescimento do podcasting tem sido surpreendente.  O próprio podcast do Sr. Curry, o Daily Source Code, tem vários milhões de ouvintes.  O iTunes da Apple, a aplicação de software e de música on-line que faz os iPods operarem, no presente momento (2006) lista 20.000 podcasts gratuítos e está adicionando mais a uma rápida velocidade, tudo isso antes do segundo ano do aniversário do podcasting.  Podcasting está se expandindo de áudio até vídeo, e esta tendência é tão nova que várias palavras (vodcasting, vidcasting, vlogging) estão ainda disputando pela honra.

Para os leitores o apelo é triplo.  Primeiro, eles se tornam seus próprios programadores, misturando música e alimentadores de conversas que eles gostam.  Isto libera os comutadores das estações comerciais de rádio, que nos EUA em especial, parecem somente estar silenciosas e estupefadas.  Segundo, os podcasts liberam os ouvintes da propaganda, e então colocam um fim no tedioso e perigoso dedilhado dos botões pré-setados do rádio do carro a 100 km por hora (no entanto, alguns podcasters estão experimentando colocar propaganda nos seus podcasts).  Acima de tudo, a mudança de tempo que os podcasts tornam possível libera as pessoas de terem que sentar em seus assentos nos seus estacionamentos de carros para ouvir o fim de um bom programa.

Rádio falido

O podcast, portanto, reflete o fim do rádio ?  “Eu não compro isso; o que nós realmente estamos vendo é uma grande mistura de coisas”, diz o Sr. Curry, o pai do podcast.  O podcasting, o rádio terrestre e um novo recém-chegado, o rádio-satélite (paid-for, ou seja, basicamente pago pela propaganda), estão todos cavando seus nichos nas vidas das pessoas populando as mídias.  O fator limitante do podcasting, diz o Sr. Curry, é que ele é “assíncrono” (isto é, não é ao vivo).  “Se eles acharem Osama bin Laden, não corra para o seu iPod”, diz ele.  Furos de notícias, chamadas para shows (e outras formas de mídia particpativa) e outros programas ao vivo ainda irão funcionar no rádio terrestre.

      

Democracia Deliberativa e Tecnologia

março 20, 2007

Interrompemos brevemente a série de posts intitulada “Mídia e Democracia Deliberativa“, só para anunciar que estamos iniciando na data de hoje uma colaboração periódica para o Blog do Jornal Folha de Pernambuco.  Para acessar o primeiro artigo desta colaboração, intitulado “Democracia Deliberativa e Tecnologia“, basta clicar aqui e ir para a categoria de Artigos.

Mídia e Democracia Deliberativa (5)

março 18, 2007

The wiki principle” (O princípio wiki)

Muitas mentes são melhores do que poucas ? Esta é a pergunta que está associada ao título acima do quarto capítulo da pesquisa Nova Mídia da revista The Economist. 

Quando as pessoas expressam ceticismo acerca da mídia participativa, elas usualmente têm pessoas como Brian Chase na mente. O Sr. Chase é um homem de 38 anos, natural de Nashville, Tennessee (EUA), que até recentemente trabalhava nos níveis de gerência de uma transportadora chamada Rush Delivery e parecia destinado a permanecer inteiramente desconhecido.  Por razões só de conhecimento dele, no entanto, o Sr. Chase em maio de 2005 decidiu fazer uma brincadeira, “uma brincadeira que saiu muito errada, horrivelmente errada”,  como ele diria no jornal de sua cidade, o Tennessean.

Sua brincadeira consistiu de uma hoax entry (farsa) no Wikipedia.org, uma enciclopédia on-line gratuita que qualquer pessoa pode editar, simplesmente ao teclar um botão que diz “edite esta página”.  O Sr. Chase postou um artigo bibliográfico de Jon Seigenthaler, um distinguido jornalista (e ex-editor do Tennessean) que em 1961 assessorou Robert Kennedy, advogado geral do governo dos EUA à época.  Sr. Chase, no entanto, fabricou uma vida inteiramente diferente da do Sr. Seigenthaler, e que ele havia vivido na União Soviética, fundando uma empresa de relações públicas e, mais perniciosamente, sugeriu que ele estava implicado em assassinatos de ambos John e Robert Kennedy. 

Normalmente, tal vandalismo é corrigido em minutos no Wikipedia porque outras pessoas vêem, removem a entrada com seu próprio juízo – que, em poucas palavras, é a filosofia e o poder da inteligência colaborativa.  Este item em particular, no entanto, caiu em desgraça.  Por 132 dias, a mentira resistiu despercebida no site.  Eventualmente, algum voluntário vasculhou o vandalismo do Sr. Chase, que finalmente apareceu no último dezembro (de 2005) e pediu desculpas profusivamente a uma impressivamente graciosa Sra. Seigenthaler.  Com isto, o episódio se tornou algo digno de nota escolar na história da mídia. 

Apesar deste episódio, a promessa do Wikipedia é nada mais nada menos que a liberação do conhecimento humano – tanto pela incorporação de todo o conhecimento através de um processo colaborativo, quanto pelo compartilhamento livre do conhecimento com todo mundo que acessa a Internet.  Isto é uma idéia radicalmente popular. 

A versão em inglês do Wikipedia dobrou em tamanho em 2005 e agora (em 2006, ano da pesquisa de The Economist) tem mais de um milhão de artigos.  Por esta medida, ele é quase doze vezes maior do que a versão impressa da Enciclopédia Britannica.  Tomado pelas outras 200 línguas em que é publicado, o Wikipedia tem mais de dois milhões de artigos.   Mais de 100.000 pessoas no mundo inteiro contribuem, com um total de quatro milhões de editados entre eles.  O Wikipedia tem mais visitantes que o New York Times, CNN e outros sites mainstream.  Ele se tornou uma ferramenta virtual de pesquisa para grande número de pessoas.  E ele só tem cinco anos (seis em 2007).

O sucesso fez do Wikipedia o mais famoso exemplo de um mais amplo fenômeno wiki.  Wikis são páginas na web que permitem qualquer pessoa que é permitida acessar (logar) nelas e modificá-las.  No caso do Wikipedia, isto acontece para qualquer pessoa. 

A palavra “wiki”vem de uma palavra hawaiana para “quick” (rápido), mas também significa “what I know is ..”.  Wikis são então a mais pura forma de criatividade participativa e de compartilhamento intelectual, e representa “uma socialização da expertise”, como coloca David Weinberger, que está escrevendo um livro sobre inteligência colaborativa.

Entre as novas mídias, os wiki são o perfeito complemento dos blogs.  Enquanto blogs contêm a voz não-editada e opinativa de uma pessoa, wikis explicita e literalmente permitem a grupos de pessoas se encontrem na mesma página proverbial.  Esta é a razão principal da falha do experimento do Los Angeles Time com wikitorias, descritos no capítulo anterior.  Os wikis são bons em sumarizar debates, mas eles são são úteis em opiniões viesadas.

Os números do Wikipedia na realidade o tornam uma anomalia entre os wikis.  Joe Kraus, co-fundador do JotSpot, um provedor de software wiki, aponta que a maioria dos milhões de wikis já existentes é desenhada por pequenos, e bem definidos, grupos de pessoas.  Membros de times em empresas, por exemplo, podem usar wikis para colaborar em apresentações de projetos ou em calendários.  Wikis são comunidades, e comunidades demandam confiança, diz Sr. Kraus.  Confiança vem mais facilmente quando as pessoas envolvidas conhecem umas as outras, ou são accountable (prestam contas) aos seus contribuintes.  Dado que o tamanho ótimo de um grupo de humanos deve ser menor do que 150 membros (ver artigo 3 desta série), a maioria dos wikis deve ser pequena.

O restante deste capítulo da pesquisa de The Economist trata de alguns detalhes da forma como opera o Wipedia.  De qualquer forma, vale a pena reproduzir aqui o gráfico que a pesquisa nos brinda sobre a evolução do Wikipedia.

Amateur

Mídia e Democracia Deliberativa (4)

março 16, 2007

Compose yourself” (Escreva você mesmo)

Este é o título do terceiro capítulo da pesquisa Nova Mídia da revista The Economist, e tem como sub-título o seguinte: “O jornalismo também está se tornando interativo, e talvez melhor”.

“Nós mudamos a política sul-coreana e o mercado de mídia, mas eu sou muito tímido para dizer isso”, declarou Oh Yeon Ho antes dele demonstrar sua própria ironia.  Mas o Sr. Oh, o fundador e chefe do Ohmy News, um jornal online, ganhou o direito de ostentar porque Ohmy é o maior exemplo de sucesso do mundo até o momento de “jornalismo cidadão” em ação.

O site de Ohmy News recebe no momento (em abril de 2006) uma média de 700.000 visitantes e 2 milhões de views por dia, o que o coloca na mesma liga dos grandes jornais.  Mas Ohmy não tem quaisquer reporters no seu quadro.  Ao contrário, ele se apóia em amadores – “cidadãos”, como o Sr. Oh prefere chamá-los- que contribuem com artigos, os quais são então editados pelo Sr. Oh, um ex-jornalista de uma revista, e alguns colegas.  O Sr. Oh gosta de pensar o Ohmy como um “playground” para hobbystas Sul-Koreanos, onde “adultos” determinam algumas regras e daí dão credibilidade ao site.  Os artigos tendem a ser bons, diz Sr. Oh.  “Eles são altamente educados e ansiosos por mudar a sociedade”.  Ohmy desenvolveu ferramentas de feedback e sistemas de pontuação de modo que os melhores artigos subam ao topo.

Uma das grandes inovações de Ohmy é econômica.  O site tem um sistema “jarra-de-gorjetas” que convida os leitores a premiar bons trabalhos com pequenas doações.  Tudo que se tem que fazer é clicar um pequeno botão da jarra-de-gorjeta para ter debitada sua conta do celular ou do cartão de crédito.  Um artigo em particular produziu o equivalente a U$ 30,000 em somente 5 dias.  A economia própria do Ohmy parece funcionar bem.  Mesmo que originalmente o Sr. Oh tenha intencionado que a empresa fosse não-lucrativa- “meu objetivo não foi ganhar dinheiro mas criar um novo jornalismo”, diz ele – ele se tornou em uma empresa lucrativa em 2003.  Ele não divulgou quanto ele ganha, mas as receitas de propaganda e syndication (de outros sites da Internet que rodam os artigos de Ohmy) parecem indicar que ele vai bem.  

O sucesso de ohmy já tem tido uma ampla ramificação na indústria da mídia da Coréia do Sul.  Apesar de não ter matado qualquer jornal ou televisão coreano, forçou todos eles a se ajustarem ao se tornarem mais parecidos com o Ohmy.  Vários sites de jornais, por exemplo, agora têm feedback e locais de conversação na base dos artigos e estão tentando interagir mais com os leitores.  Sr. Oh, que deixou sua carreira na mídia mainstream porque ele estava chateado com o que ele percebia do seu viés conservador, também reconhece que Ohmy ajudou a melhorar o balanço.  Se as escalas da mídia favoreciam 80% os conservadores, ele acha,  Ohmy reduziu isto para 60%; ele deseja 50%.

O quê funciona e o quê não funciona

A pesquisa de The Economist aponta para uma série de outros exemplos (de sucesso ou não) similares aos de Ohmy, principalmente do que ela chama de “jornalismo cidadão” nos EUA.  Neste rol está a Current TV, criada por Al Gore (ex-presidente dos Estados Unidos) e seu sócio Joel Hyatt.  A Current TV é um canal de televisão a cabo que encoraja seus espectadores a contribuir com seus videos, e eles o fazem.  Praticamente 30% do tempo do canal é para o que eles chamam VC2- Viewer-created content- conteúdo criado pelo espectador.

Para a sociedade como um todo, todos estes novos talentos – de blogueiros, que são jornalistas no senso clássico, até os jornalistas cidadãos – devem contar para algo surpreendentemente positivo.  “Quanto mais jornalismo melhor; não me importo quem faz”, diz Dan Gillmor, um jornalista que saiu do San Jose Mercury News, um jornal amplamente lido no Vale do Sicílio, para fundar Grassroots Media, um experimento de jornalismo cidadão.  Isto não é, no entanto, como jornalistas profissionais, ostensivamente falando em defesa do público, vêem a coisa !

Duramente impresso

A indústria dos jornais está num perfeito vendaval.  Nos EUA a circulação tem caído gradualmente desde 1990, de acordo com Editor & Publisher, um jornal comercial baseado em informação sobre a imprensa.  A tendência em outros países é a mesma.  A maioria dos jovens não lê um jornal diário de forma alguma. 

Para tornar a coisa ainda pior (e para desvalorizar o argumento de que a sociedade deve preservar os jornais como fontes “confiáveis”de notícias), a indústria tem estado sob uma séire de escândalos, o mais notório sendo o fiasco do jornalista Jayson Blair, do New York Times, que produziu/falsificou suas próprias estórias.  De acordo com The State of the News Media, um projeto americano de pesquisa anual, a indústria já demitiu mais de 3.500 profissionais desde 2000, algo em torno de 7% do total.

As tendências na propaganda- e particularmente nos classificados, um inerentemente meio gerado pelo usuário – são piores ainda.  Primeiramente, os propagandistas têm sido mais lentos em ajustar que os jornais.  Depois de admitirem um iníco retardado, os jornais estão aogra se dando melhor em ajudar seus leitores a se moverem para as ofertas on-line.  Mas os propagandistas não valoram as duas mídias do mesmo modo.  Lauren Rich Fine, um analista financeiro de jornais, estima que para cada dólar de propaganda que um jornal recebe de um leitor da edição impressa, ele recebe somente 20 a 30 centavos pelo seu equivalente on-line.   Mesmo assim, a propaganda on-line está crescendo 30% ou mais por ano.  Pip Coburn, um estrategista de investimentos, estima que mesmo jornais como o New York Times, que é amplamente lido on-line, recebe somente 5 a 10% das suas receitas da web.

A velha mídia luta de volta

Mas crescentemente os barões dos jornais, não satisfeitos em presidir o lento declínio, querem abraçar a revolução.  Um deles é Robert Murdoch, presidente da News Corportation, um dos maiores editores de jornais do mundo que fala inglês.   Em 2005 ele disse na American Society of Newspapers Editors que “como uma indústria, muitos de nós têm sido marcadamente complacentes”.   Jovens leitores, disse Sr. Murdoch, “não querem se apoiar uma figura divina de cima que diga para eles o que é importante, e eles não querem que as notícias sejam apresentadas como um evangelho.  Deste modo, o quê os jornais precisam fazer on-line para se ajustarem ? O nativo digital não envia mais uma carta para o editor.  Ele (a) vai on-line e cria um blog.  Nós precismos ser o destino para estes blogueiros”.  Logo depois de seu discurso, Murdoch comprou o MySpace, um site de blogging e redes-sociais amplamente popular entre os jovens.

O restante deste capítulo da pesquisa de The Economist trata da questão de como tornar os jornais em “lugares de conversações” e de como a interatividade pode ser desenvolvida.  E a sugestão que é dada é a de uma mudança do atual enfoque dos  jornais para um que seja de acesso livre e permanente de várias conexões.  Ao invés de assumir que os leitores irão começar da página inicial, os editores deveriam esperar que os leitores venham de qualquer ponto, provavelmente tendo vindo de uma página do Google, ou de um blog, ou de um e-mail de um amigo com um link (conexão).  O próximo passo seria o encorajamento da participação dos usuários.

Enfim, são várias as mudanças que estão redefinido a mídia e a forma como o público em geral está interagindo com ela.  Com isso muda também o processo democrático !

Mídia e Democracia Deliberativa (3)

março 14, 2007

It´s the links, stupid” (São as conexões, estúpido”)

Este é o título do segundo capítulo da pesquisa sobre Nova Mídia que aqui estamos comentando. Como subtítulo a revista The Economist registrou: “Blogar é somente uma nova palavra para ter conversações”.

Se você quer entrar num debate engraçado, pergunte aos blogueiros/bloguistas o que é um blog, diz Jeremy Zawodny do Yahoo ! Há uns poucos anos este debate teria sido curto. Tão poucas eram as pessoas blogando que a maioria delas conhecia um ao outro e poderia, provavelmente, concordar com uma definição. Hoje um novo blog é criado a cada segundo do dia, de acordo com Technorati, um engenho de busca para blogs, e a “bloguesfera” está duplicando em tamanho a cada cinco meses (ver Figura 1 abaixo).

Blogs

De adolescentes a executivos todos têm razões próprias para engajarem nesta nova atividade.  O que, então, é um blog ? Um jornal online pessoal é a definição que a maioria dos jornais, incluindo The Economist, oferece quando eles necessitam ser breves. Tradicionalmente os jornais eram privados ou mesmo relações secretas, e nunca foram conectados a outros jornais. Blogs, ao contrário, são sociais por natureza, sejam eles abertos ao público como um todo ou somente para um pequeno seleto grupo.

A palavra blog apareceu em 1997, quando um dos poucos praticantes à época, Jorn Barger, chamou seu site de “weblog”. Tecnicamente ele significa uma página na web para a qual seu dono regularmente adiciona novas entradas, ou “posts”, os quais tendem a ser (mas não necessitam ser) curtos e frequentemente contêm hiperlinks para outros blogs ou websites. Além de textos e hipertextos posts podem também conter fotos (“photlogs”) e vídeo (“vlogs”).

Entre outras características técnicas dos blogs, duas iluminam a quinta-essencialidade da natureza social de blogar. A primeira é um “blogroll”, ao lado da página do blog, o qual é uma lista de conexões para outros blogs que o autor recomenda (não confundir com hiperlinks dentro dos posts). A outra característica é “trackback” (trilha) que notifica um blog sobre cada nova conexão entrante de fora – como um medidor de fofoca.

Blogar é também algo sobre estilo. Dave Winer, um engenheiro de software que pioneirou várias tecnologias de blogs, e que mantém, em suas estimativas, o mais antigo blog em operação (desde 1997), tem argumentado que a essência de blogar é a “voz não editada de uma única pessoa”, preferencialmente um amador.

O número Dunbar

Depois de comentar as ferramentas por trás dos blogs, como LiveJournal, a pesquisa comenta sobre o pequeno número de leitores dos blogs e, ao considerar que estas pequenas audiências são comuns em mídia participativa, aludiu que elas (as pequenas audiências) conformam um “norma biológica”, que pode ser aferida pelo número Dunbar.

Robin Dunbar, um antropólogo da Universidade de Liverpool na Inglaterra, tem estudado primatas e descobriu uma surpreendente taxa estável entre o tamanho relativo do neocortex (tido como o responsável pela evolução da inteligência) e o tamanho de grupos formados por espécies em particular. Para os humanos, o Prof. Dunbar calculou que esta taxa, no seu limite superior seria 150. Muitos clãs, tribos, fã-clubes, start-ups, e outros grupos permanecem bem abaixo deste limite, tal como a maioria das redes de blogs.

Os grupos de leitores do LiveJournal são típicos desta Era de Nova Mídia de um outro modo. Os blogueiros (isto é, os criadores) são um outro tipo de audiência, de modo que as distinções entre os dois desaparecem. Criadores e audiências se congregam em sinuosas conversações, um espaço comum compartilhado de emoções e interesses. MySpace.com, um serviço de rede social e de blogs que foi comprado em 2005 pela News Corporation, do conglomerado de mídia do bilionário Robert Murdoch, reflete esta qualidade em seu nome.

Conversações têm uma vida própria. Elas tendem a se mover em direções inesperadas e flutuam sem previsões. São estas emergências de conversações não-planejadas que tendem a trazer a bloguesfera para a atenção do público mais velho e mais amplo de não-blogueiros e a mídia mainstream (principal).

Depois de comentar que a Alemanha tem sido um retardatário na nova onda de blogs, a pesquisa aponta para opiniões oriundas de influentes pessoas/empresas de mídia deste país sobre o fenômeno dos blogs:

“ … pelo menos em sociedades democráticas todo mundo tem o direito de sustentar opiniões, e que a necessidade de conectar e conversar com outros é tão básica que deveria também ser adicionada à vida, à liberdade e à busca de felicidade”

“ … Isso é democratização, onde as pessoas podem participar ao escrever de volta”

“ … Jornalismo não será mais um sermão, será uma conversação” .

Mídia e Democracia Deliberativa (2)

março 13, 2007

“A era da mídia de massa está dando lugar a uma mídia pessoal e participativa, diz Andreas Kluth. Isto vai mudar profundamente ambas indústria e sociedade como um todo”.

Esta é a mensagem que sublinha o título do primeiro capítulo da pesquisa sobre Nova Mídia (que se intitula “Among the audience”- “Entre a audiência”) que a revista The Economist publicou em abril de 2006.

O capítulo inicia com uma referência a duas tecnologias temporalmente determinadas: a “movable type” (a impressão móvel), de Johannes Gutenberg, de 1448, e uma segunda movable type (uma ferramenta de produção de blogs) criada por um casal de professores de escola do ensino médio dos EUA por volta de 2001.

As duas encarnações de impressão móvel encapsulam a era da mídia de massa que é familiar a todo mundo hoje. Mas a segunda, na opinião da pesquisa, marca uma gradual transição para uma nova era, que pode ser chamada de “idade da mídia pessoal e participativa”. E esta cultura já é familiar para adolescentes e “vinte-e-mais-anos”, especialmente nos países ricos.

Chamar esta era de Internet não ajuda. Ao contrário de muitas corporações que ofertaram infraestrutura assumindo que a Internet fosse simplesmente ser um outro tubo de distribuição para eles e seus parceiros na indústria da mídia, hoje elas raramente aceitam um cenário em que os usuários coloquem tanto na rede quanto retiram.

E é exatamente isso que está começando a acontecer. Em novembro de 2005 o Projeto Pew Internet & American Life constatou que 57% dos adolescentes americanos criaram conteúdo para a Internet. Nesta nova cultura midiática, diz Paul Saffo, um diretor do Institute for the Future, da Califórnia, as pessoas não mais “consomem” mídia passivamente (e daí propaganda, sua principal fonte de recursos), mas ativamente participam dela, que usualmente significa criar conteúdo em qualquer forma e em qualquer escala. Isto não quer dizer que as pessoas fazem seus “próprios jornais”.

Isto tem profundas implicações para os modelos tradicionais da indústria da mídia, os quais são baseados na agregação de grandes audiências passivas e mantendo elas cativas durante as interrupções de propagandas. Na era da nova mídia as audiências irão ocasionalmente ser grandes, mas frequentemente pequenas, e usualmente muito pequenas.

Ao invés de grandes -ricos em capital- gigantes da mídia competindo uns com os outros por estas audiências, serão pequenas empresas e indivíduos competindo, ou mais frequentemente, colaborando. Alguns vão ganhar dinheiro com o conteúdo que eles criam; outros não vão e não irão se incomodar porque eles têm outros motivos. “Pessoas criando coisas para construir sua própria reputação!

Tal como a revolução da mídia de 1448, com a mídia participativa as fronteiras entre audiências e criadores se tornam tênues e frequentemente invisíveis. Nas palavras de David Sifry, fundador de Technorati, um engenho de busca para blogs, aulas do tipo uma-para-muitos (i.e, de empresas de mídia para suas audiências) são transformadas em “conversações” entre as pessoas anteriormente conhecidas como a audiência. Isto muda o tom das discussões públicas.

O que é novo neste novo contexto é que os jovens, e a maioria das pessoas no futuro, ficarão felizes em decidir por eles mesmos o que é crível ou de valor e o que não é. E eles vão ter muita ajuda. Algumas vezes eles vão se valer de editores humanos de suas escolhas; em outros momentos eles vão se apoiar em inteligência coletiva na forma de novos filtros de tecnologias de colabroação que estão sendo agora desenvolvidas. “O velho modelo de mídia era: há uma fonte de verdade. O novo modelo de mídia é: há múltiplas fontes de verdade, e nós vamos escolher”, diz Joe Kraus, o fundador de JotSpot, que faz software para wikis.

Esta pesquisa de The Economist tem como objetivo examinar as principais categorias de novas mídias e seus prováveis efeitos de longo-prazo em ambas empresas de mídia e sociedade como um todo.


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