Horizonte de incertezas

By jccavalcanti
O Prof. Paul Krugman, uma das cabeças mais privilegiadas da Economia Internacional, esteve no Brasil e apresentou sua visão sobre a Crise Internacional.  Vejam parte do que ele palestrou, em matéria que saiu hoje em encarte especial (Horizonte de incertezas) do Valor Econômico, seguida de entrevista.
 
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Horizonte de incertezas

Por Sergio Lamucci e Cristiane Perini Lucchesi, de São Paulo
24/07/2008
A crise financeira dos Estados Unidos e da Europa que se seguiu ao estouro da bolha imobiliária americana não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. Esse é o diagnóstico feito pelo professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, para quem a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais – como o Federal Reserve, dos Estados Unidos, o Banco da Inglaterra e, em menor grau, o Banco Central Europeu – foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. A avaliação de que os efeitos da crise não serão muito agudos, porém prolongados, é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho.
Quanto ao Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. No meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários, como nota Krugman. O economista americano participou ontem do Fórum CPFL Energia, realizado em São Paulo. O evento, que contou com o apoio do Valor, teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.
Ao comentar as origens da crise americana atual, Krugman destacou uma mudança na economia global que teve início depois da crise asiática de 1997. Após a turbulência que acometeu a região naquele ano, muitos países asiáticos adotaram uma estratégia baseada no atrelamento de suas moedas ao dólar, formal ou informalmente, e na acumulação agressiva de reservas internacionais.
O excedente dos superávits comerciais dos asiáticos passou a ser aplicado principalmente na compra de títulos públicos do Tesouro dos EUA. Esse arranjo, pelo qual os países da Ásia passaram a financiar os déficits americanos, ficou conhecido como Bretton Woods II, definição cunhada pelos economistas Michael Dooley, David Folkerts-Landau e Peter Garber. As conferências de Bretton Woods aconteceram em 1944 e determinaram um sistema de câmbio fixo global, usando como base a paridade entre o dólar e o ouro. Esse sistema acabou nos anos 70.
No Bretton Woods II, “países que eram importadores de capital se tornaram exportadores de capital”, disse Krugman. Esse mecanismo ajudou a financiar as bolhas especulativas na economia americana, diz ele, lembrando que os preços dos imóveis nos EUA cresceram 70%, em termos reais, entre 2000 e 2006.
A bolha então estourou, primeiramente com a crise do subprime (as hipotecas de alto risco), que atingiu os mercados internacionais a partir de meados do ano passado. “De agosto de 2007 para cá, nós já tivemos quatro ondas sucessivas da crise. A mais recente foi a da Fannie Mae e da Freddie Mac”, apontou Krugman, em referência às dificuldades enfrentadas pelas gigantes do financiamento imobiliário americano.
Dado o tamanho do problema, seria factível pensar num cenário parecido com o colapso financeiro dos anos 30, disse ele. A grande diferença é que os bancos centrais agiram agressivamente para evitar o pior. Com essa atuação, Krugman acredita que um colapso financeiro como o ocorrido nos anos 30 é muito pouco provável, embora não completamente implausível. “Mas, há seis meses eu tinha mais dúvidas sobre isso”, afirmou ele. Krugman não negou a existência do chamado “risco moral” – moral hazard -, de bancos não-regulamentados receberem garantias governamentais iguais aos regulamentados. “Há o risco de estarem jogando com o dinheiro público”, afirmou. Atuação das autoridades monetárias não deve impedir, também, que os EUA cresçam alguns anos abaixo do seu potencial, advertiu Krugman, que vê o seu país em recessão. “O crescimento só não tem sido mais baixo por causa do dólar fraco, que tem feito aumentar as exportações.”
Belluzzo concordou com a avaliação de Krugman, apostando que a crise não “será aguda, mas será prolongada”. Para Belluzzo, já está em curso um “credit crunch”, ou seja, uma violenta contração do crédito. “Isso gera problemas graves para a economia real”, afirmou ele, para quem também é provável que a economia americana cresça algum tempo abaixo do potencial. Coutinho, por sua vez, enfatizou que os problemas financeiros nos EUA deverão demorar bastante para ser digeridos. Quem previu em maio o fim da crise mostrou-se totalmente precipitado, observou ele.
Krugman considera crucial o papel do câmbio desvalorizado nos EUA para explicar os efeitos globais da atual crise, num mundo em que países importantes como a China tem suas moedas em alguma medida atrelada ao dólar. Além do aumento dos preços das commodities em dólar, Krugman disse que, dado o arranjo de Bretton Woods II, os “EUA estão de fato exportando inflação para o mundo”, com o dólar fraco e os juros baixos. Nos Estados Unidos, que enfrentam uma crise financeira e uma desaceleração da atividade econômica, essa combinação não é inflacionária nem expansionista. Nos países que de algum modo atrelam sua moeda à divisa americana, a situação é diferente, como por exemplo na China.
Ele lembrou que os cortes de juros do Fed têm afetado o crédito imobiliário americano, que continua com alta de taxas para o cliente final. No entanto, tem promovido uma aceleração forte de crescimento nas economias dos países emergentes. Para ele, a economia da China está superaquecida e será necessário desacelerar o ritmo de crescimento. Uma das estratégias para combater a inflação nesses países será por meio da valorização de suas moedas, acredita Krugman. Com isso, a China, um dos principais motores da economia global nos últimos anos, deverá crescer a um ritmo um pouco menor daqui para frente, o que, segundo ele, poderá levar a alguma queda dos preços de commodities, mas não a um tombo abrupto. Esse crescimento menor na China, na sua visão, não é positivo para o Brasil, que pode ter seu ritmo de expansão econômica reduzido.
Krugman foi cuidadoso ao falar do impacto da crise ao Brasil. Disse que a situação é mais complicada de se analisar, porque o país não faz parte do Bretton Woods II, tendo em seu lugar um câmbio flutuante que já se valorizou bastante em termos reais nos últimos anos. Com a perspectiva de alguma queda das commodities, ele acha possível que haja uma desvalorização do câmbio. Quanto à orientação das políticas no Brasil, disse que poderia afirmar que “elas não são obviamente estúpidas”.
Também presente no evento, o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros discordou da avaliação de Krugman sobre o papel da China. Para ele, o economista americano vê o país asiático como um personagem passivo, o que não seria condizente com a importância chinesa para a economia global. Para Mendonça de Barros, a China é, de fato, um dado novo no equilíbrio global, que mudou profundamente o panorama econômico do mundo. “O Brasil, por exemplo, foi um dos principais beneficiários do surgimento da China”, disse ele, referindo-se ao fato de o país asiático demandar fortemente os produtos exportados pelo país.
O ex-ministro avalia ainda que a China terá um papel crucial inclusive para “viabilizar a solução do problema econômico americano”. Mendonça de Barros destacou a importância cada vez maior do consumo na economia chinesa, compensando em parte a desaceleração na economia americana. Mendonça de Barros ressaltou a flexibilidade da economia dos EUA, que sempre mostra uma capacidade de adaptação a situações complicadas. “Eu aprendi que não se deve apostar contra o capitalismo americano, porque você acaba perdendo dinheiro.”
Para Luciano Coutinho, a economia brasileira tem condições favoráveis como nunca no pós-guerra para enfrentar a crise. “O colchão de reservas e a estabilidade e crescimento econômico vão permitir a digestão melhor dos problemas financeiros internacionais”, disse. Para ele, a alta de juros básicos é necessária neste momento e vai promover uma desaceleração “desejável” no crédito no Brasil. Na sua visão, “não há risco de o crédito desabar, ter uma parada abrupta”.
 
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Estagflação não está em jogo, avalia Krugman
Sergio Lamucci, de São Paulo
24/07/2008
O economista Paul Krugman vê com preocupação as pressões inflacionárias que assolam o mundo, mas não recomenda o remédio amargo do aumento dos juros para todos os pacientes. Professor da Universidade de Princeton, ele contraria a opinião de muitos analistas e diz que não é o momento adequado para o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) elevar as taxas. Segundo ele, não há uma espiral inflacionária de preços e salários em curso nos EUA, país que enfrenta uma recessão e ainda sofre com os efeitos da crise financeira. No caso de países como o Brasil, porém, o diagnóstico de Krugman é outro: a alta dos preços não se limita a pressões das commodities, havendo sinais de que a demanda está muito aquecida. “O que o BC tem feito parece sensato.”
Krugman acredita que a economia global não deve passar por uma recessão, notando que as dificuldades que atravessam os EUA e a Europa não têm se espalhado de modo intenso para o resto do mundo. Segundo ele, o Brasil tem se saído bem na crise em boa parte por ser um grande exportador de commodities, cujos preços atingiram níveis muito elevados.
Krugman vê com cautela o potencial do etanol brasileiro, mostrando ceticismo quanto à possibilidade de o país tornar-se uma superpotência energética. Ele também é prudente ao comentar as recentes descobertas de petróleo na camada de pré-sal. “Tudo vai depender do tamanho das reservas e da possibilidade de extrair esse petróleo”, afirma o economista.
Embora acredite que não há por que o Fed aumentar os juros nos EUA, ele considera possível que o presidente da instituição, Ben Bernanke, acabe por elevar as taxas, ainda que não tenha uma visão negativa da inflação. “Bernanke está sob muita pressão”, diz Krugman, ao falar sobre seu ex-colega de Princeton. Para um banqueiro central relativamente novo, pode ser difícil evitar um aumento dos juros nas atuais circunstâncias.
Crítico ácido do governo George W. Bush, Krugman diz que o maior desafio do democrata Barack Obama, se eleito, será fazer uma grande reforma do sistema de saúde. Se não tiver avanços nesse campo para apresentar até as eleições de metade de mandato, em novembro de 2010, um eventual governo Obama poderá ser visto como um fracasso, nota ele.
Krugman rechaça a avaliação de que John McCain é uma opção melhor para os interesses do Brasil do que Obama, derivada da idéia corrente de que os republicanos são menos protecionistas que os democratas. Segundo ele, os dois governos mais protecionistas dos últimos 30 anos nos EUA foram os dos republicanos Ronald Reagan e Bush filho.
Krugman participou ontem do Fórum CPFL Energia, evento apoiado pelo Valor. Esta entrevista foi concedida na segunda-feira, por telefone. A seguir, os principais trechos.
Valor: Nos últimos anos, o Brasil e outros países emergentes tiveram reduções significativas da pobreza. Em que medida a inflação, principalmente a inflação de alimentos, vai afetar esse processo?
Paul Krugman: A tendência de longo prazo ainda é boa, mas a inflação de alimentos tem sido muito séria, especialmente em países em desenvolvimento, em que os gastos com comida são uma grande parte das despesas dos pobres. Há também a inflação de energia, que tende a ter um impacto regressivo, mas isso ocorre especialmente com alimentos. No entanto, acho que é um choque que ocorre de uma vez. Não vejo uma espiral inflacionária aí.
Valor: Qual é a melhor estratégia para enfrentar a inflação de alimentos?
Krugman: Não há respostas de curto prazo. Não é uma questão de especulação, certamente não no caso de alimentos, em que os estoques estão perto de níveis recordes de baixa. Ao longo do tempo, deverá haver alguma resposta do lado da oferta que vai ajudar. Você pode eliminar o impacto realmente destrutivo de algumas políticas de biocombustíveis, como na Europa e nos EUA. É possível fornecer ajuda para os países mais pobres e para as pessoas mais pobres. Mas, quanto aos preços de alimentos, não há muito o que fazer para derrubá-los. Eu não acho que faça sentido aumentar os juros para lidar com os preços de alimentos. Isso é basicamente dizer: nós vamos pegar o sofrimento e intensificá-lo. Em termos globais, essa não é uma resposta adequada. Nós podemos conversar sobre a situação do Brasil, mas, quando você olha globalmente, a economia está desacelerando, e não faz sentido para todo o mundo fazer isso.
Valor: Alguns analistas dizem que a era de inflação baixa acabou, prevendo em seu lugar uma era de inflação mais alta e menor crescimento nos próximos anos. Esse é o cenário mais provável?

 

Krugman: Acho que não há uma história única para a economia global. Nos EUA, eu não vejo uma espiral inflacionária, e há uma forte desaceleração da economia. Em algumas economias emergentes, há um crescimento muito forte. A economia da China parece superaquecida. Eles provavelmente terão que reduzir o crescimento. Mas há poucas semelhanças com os anos 70. Nós temos inflação de alimentos e de energia, é verdade, mas não há muitos sinais de estagflação. Se você analisar a economia como um todo, ela vem crescendo acima do potencial, e haverá alguma desaceleração, em alguma medida.

 

Valor: Em artigo recente sobre a economia americana, o sr. diz que “nós não precisamos de juros mais altos para ter a inflação sob controle”. Por que o sr. não está tão preocupado com a inflação como muitos analistas que dizem que o Fed está lutando contra o inimigo errado?

 

Krugman: Até que ponto nós temos um problema de inflação nos EUA que vai além de preços de commodities? A resposta é que não há esse problema. Há vários indicadores que se pode analisar. Você pode olhar para salários, que é a coisa mais simples. A variação dos salários está caindo, e não subindo. Não há nenhum sinal de uma espiral de preços e salários. Você pode olhar para serviços tradicionais, que também estão caindo. Eu não acho que estagflação seja uma questão importante.

 

Valor: O Federal Reserve deve se preocupar mais com a crise financeira do que com a desaceleração da atividade econômica?

 

Krugman: A inflação “cheia” deve cair com força assim que acabar o choque de aumento de preços de alimentos e energia. Eles não têm nem que cair. Enquanto isso, as dificuldades financeiras e os riscos na economia real continuam elevados. Então eu sou muito moderado (dovish) na política monetária nos EUA.

 

Valor: O sr. acha que o seu amigo Ben Bernanke será tão moderado quanto o sr.?

 

Krugman: Provavelmente não. Eu não sei se o Fed aumentará os juros, mas ele está sob pressão para fazer isso. Falando em termos gerais, ele parece ter o mesmo panorama da economia que eu tenho, mas está sob pressão muito intensa. É mais difícil para um banqueiro central relativamente novo no cargo.

 

Valor: O Banco Central brasileiro começou a aumentar os juros em abril, para deter a aceleração da inflação. A maior fonte de pressão é a alta de preços de alimentos, mas há também aumentos de preços de serviços, devido à força da demanda doméstica. O BC está certo em aumentar os juros?

 

Krugman: Eu não sou nenhum expert no Brasil. Mas, numa análise rápida, os argumentos para um aumento de juros no Brasil são muito mais fortes do que nos EUA. Há alguma inflação que tem origem além da alta de preços de commodities. Realmente parece uma economia com uma demanda doméstica pujante. O desemprego, por exemplo, cai para níveis que não se viam há muito tempo. Em face disso, o que o BC tem feito parece sensato. Os números para o Brasil não se parecem com os números para os EUA. Eu digo isso com base numa visão genérica, mas não parece que o BC está fazendo algo obviamente errado.

 

Valor: Depois de anos de crescimento medíocre, o Brasil está crescendo entre 4,5% a 5%. O sr. acha que esse ritmo é sustentável?

 

Krugman: Eu gosto de ter bons dados sobre essas coisas, mas parece que as medidas de utilização de força de trabalho estão aumentando, o que sugere que a economia talvez esteja crescendo um pouco acima do potencial. De qualquer modo, taxas de crescimento nesse intervalo parecem razoáveis para países em desenvolvimento em processo de catch up (o processo de convergência de países emergentes para os níveis de renda per capita e produtividade dos países desenvolvidos).

 

Valor: O Brasil mostrou melhoras na economia nos últimos anos, mas continua com juros reais muito altos e tem uma taxa de câmbio sobrevalorizada. Isso pode afetar as perspectivas de crescimento nos próximos anos?

 


Os dois presidentes mais protecionistas nos últimos 30 anos foram republicanos: Ronald Reagan e George W. Bush

 

Krugman: Eu não tenho certeza de que o câmbio esteja sobrevalorizado. O Brasil não está gerando déficits elevados em conta corrente. Para um país emergente, um destino natural de fluxos de capitais, um déficit pequeno não é muito preocupante. Não estamos falando de uma situação parecida com a Tailândia em 1997 ou mesmo como o México em 1993. Não há uma demonstração clara de sobrevalorização. Quanto aos juros reais, é difícil saber por que elas continuam tão altas mesmo depois das melhoras recentes, mas isso não parece necessariamente um problema para o crescimento. Por muitos anos, os juros reais, em tempos de crise, ficaram muito mais elevados, e um nível de 7% a 8% não parece tão ruim.

 

Valor: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um grande entusiasta do potencial do etanol de cana-de-açúcar. O sr. acredita que isso pode de fato transformar o Brasil numa potência energética?

 

Krugman: Certamente está ajudando o Brasil. Do ponto de vista econômico, o etanol de cana-de-açúcar é, sem dúvida, melhor do que o etanol de milho. Mas, embora Lula diga que o etanol de cana-de-açúcar não está de modo nenhum afetando a produção de alimentos, para transformar o Brasil numa superpotência energética, isso ocorreria. Acho que o etanol deve ser visto como um elemento moderno a mais na economia, mas não transformador.

 

Valor: O sr. está a par das descobertas de reservas de petróleo do Brasil na camada de pré-sal? Elas devem tornar o Brasil de fato um participante importante no mercado de petróleo?

 

Krugman: Sim, eu estou informado. Tudo vai depender do tamanho das reservas e da possibilidade de extrair esse petróleo. Nós ainda não sabemos a real extensão das reservas. Elas parecem grandes, mas nós já tivemos projeções muito otimistas em outros lugares que não se confirmaram. Até onde eu sei, é um desafio do ponto de vista técnico extrair o petróleo. É obviamente uma boa notícia para o Brasil, mas ainda parece cedo para proclamar o país a próxima Arábia Saudita.

 

Valor: Em artigo recente, o sr. escreve que os políticos estão ansiosos para culpar os especuladores pelo petróleo caro porque isso permite que eles acreditem “que nós não temos que nos adaptar a um mundo de gasolina mais cara”. Quais são as melhores respostas para um mundo de petróleo caro?

 

Krugman: Basicamente, o petróleo caro se deve, pelo que o mercado nos diz, a uma oferta limitada e a uma demanda crescente. A melhor resposta ao petróleo caro é, primeiro, conservação e, em alguma medida, usar energias alternativas. Mas, basicamente, ajustar a economia para viver com o petróleo caro.

 

Valor: Qual é o papel dos biocombustíveis nesse processo?

 

Krugman: Depende muito. Etanol de cana-de-açúcar parece ok, mas, de um ponto de vista global, parece uma resposta limitada. Do ponto de vista do Brasil, é algo realmente grande, mas de um ponto de vista global, nem tanto. O etanol de milho é realmente uma idéia ruim. Para resolver o problema, não haverá uma resposta única, uma bala de prata. Serão necessários vários ajustes.

 

Valor: Os problemas com o IndyMac Bank, a Fannie Mae e a Freddie Mac confirmam que a crise financeira nos EUA ainda é uma grande preocupação. Até que ponto ela vai afetar as perspectivas de crescimento dos EUA, e também da economia global, nos próximos anos?

 

Krugman: A crise americana parece muito grave. É um peso real para a economia. Há problemas no mercado imobiliário e no sistema financeiro. Se os dois últimos ciclos diferentes servem como guia, a crise atual pode levar a alguns anos de crescimento abaixo da média nos EUA. Quanto isso pode afetar a economia global, ainda não está claro. Ocorreu uma mudança do centro de gravidade da economia global para fora dos EUA. Se vai haver uma recessão global parece duvidoso, a não ser que as coisas piorem bastante.

 

Valor: O sr. vê uma recessão nos EUA?

 

Krugman: Sim, acho que nós estamos em recessão. O PIB parece estar crescendo lentamente, mas o emprego está em queda. A produção industrial está estagnada. Há uma questão sobre como se define uma recessão, mas na prática há uma economia em queda.

 

Valor: Mas o sr. não é tão pessimista quanto Nouriel Roubini [professor da Universidade de Nova York, famoso por traçar quadros muito pessimistas para a economia americana e global] .

 

Krugman: Eu certamente acho que há uma chance em cinco de que a situação financeira se torne uma catástrofe. Mas no momento me parece que nós caminhamos para algo que teria ocorrido em 1930 se o Federal Reserve tivesse entendido o risco e tivesse reagido agressivamente. Provavelmente ele teria evitado o pior. Essencialmente, nós tivemos bancos centrais muito pró-ativos nesta crise, o que não impediu que nós enfrentássemos muitos problemas, mas provavelmente conseguiu evitar uma crise financeira como nos anos 30.

 

Valor: Por que o Brasil está sofrendo bem menos nessa crise?

 

Krugman: Em termos gerais, não houve um grande contágio das dificuldades dos EUA e da Europa para o resto do mundo. Além disso, o Brasil é um grande exportador de commodities, o que ajuda num momento em que os preços desses produtos estão em alta. Eu lembro de 1982, quando tudo afetou o Brasil negativamente. O país era um grande importador de petróleo. Naquela época, os juros internacionais aumentaram muito, quando o Brasil era um grande devedor líquido. Desta vez, os choques externos têm sido positivos para o Brasil.

 

Valor: O sr. escreveu recentemente que, “para os democratas, ganhar esta eleição deve ser a parte fácil. A questão real é se eles vão aproveitar a vantagem dessa chance que ocorre a cada geração para mudar a direção do país”. Quais são os principais desafios para Barack Obama, principalmente na economia?

 

Krugman: Na economia, ele terá que mostrar alguns resultados muito cedo. Ele provavelmente terá alguns trimestres depois de assumir o cargo antes de que ele seja visto como o responsável pelos resultados, e não mais Bush, mas terá que mostrar algumas melhoras. A questão é que isso não é tão fácil. Nós provavelmente precisamos de um sério pacote de estímulo que envolva mais gastos, e não redução de impostos, e isso pode ser difícil de conseguir. Em termos mais amplos, se ele não fizer uma grande reforma no sistema de saúde no primeiro ano, estará numa situação ruim em termos políticos. Obama terá que mostrar que realmente quer mudar a vida das pessoas. Se em novembro de 2010, nas eleições de metade do mandato, ele não tiver conseguido algo grande no sistema de saúde, poderá ser visto como um fracasso.

 

Valor: Nos últimos anos, o sr. foi um crítico ácido do governo Bush. O sr. acha que um governo de John McCain seria mais do mesmo ou mesmo um republicano como ele seria uma mudança em relação a Bush?

 

Krugman: McCain é uma pessoa mais admirável do que Bush, mas ele não está oferecendo nenhuma proposta de mudança substancial nas políticas. Os seus conselheiros políticos parecem estar na direção de Bush. Não há nenhum sinal de que ele faria as coisas de modo diferente. Uma esperança é de que a corrupção seja reduzida, mas nós não sabemos nem isso com certeza.

 

Valor: No Brasil, o senso comum diz que McCain seria um presidente melhor para os interesses brasileiros do que Obama, porque os republicanos tendem a ser menos protecionistas que os democratas. O sr. concorda com essa visão?

 

Krugman: Não. Você tem que distinguir entre o que as pessoas dizem do que elas fazem. Na verdade, os dois presidentes dos EUA nos últimos 30 anos mais protecionistas foram Ronald Reagan e George W. Bush. Há um motivo para isso. Os democratas realmente acreditam em instituições e acordos internacionais, e os republicanos, não. Vamos pegar o caso das tarifas do aço. Eu tenho certeza de que pessoas do Departamento de Estado e do Escritório do Representante Comercial dos EUA disseram que isso seria ilegal e que eles perderiam na Organização Mundial do Comércio (OMC). Numa administração democrata, isso seria o fim da história. No governo Bush, eles foram em frente e o fizeram de todo modo. Eles não acreditam em instituições internacionais.

 

Valor: O sr. acredita na viabilidade da Área de Livre Comércio das Américas (Alca)?

 

Krugman: Acho difícil. O principal motivo é que a Alca, acima de tudo, tem que ser um acordo muito básico entre os EUA e o Brasil, e há muitos conflitos na área agrícola. Há poderosos grupos de interesse envolvidos. O Nafta [Acordo de Livre Comércio da América do Norte] se concretizou apesar de dificuldades políticas porque os EUA têm fronteira enorme com o México. O Brasil não é um parceiro comercial natural como o México. Acho que num mundo futuro isso pode ocorrer, mas eu basicamente não vejo isso ocorrendo.

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