Observei nos últimos dias que ainda são poucas as previsões para 2008 das instituições ligadas à indústria de TICs, talvez pelo fato de que a economia americana está dando sinais confusos sobre o que irá acontecer com ela daqui para frente (e como a indústria de TICs americana é a maior do mundo, as projeções para esta indústria estão contaminadas pela economia dos EUA como um todo. Quem quiser dar uma olhada nos comentários sobre a saúde da economia americana, é só descer um pouqinho aqui no blog e ver o que há a respeito).
De qualquer forma, aqui vão minhas previsões para TICs em 2008.
* A indústria de TICs no Brasil está convivendo com um período de profunda transformação recente da economia brasileira. Nossa economia está deixando de ser “guiada pelos mãos do Estado” (tradição que se observou marcadamente a partir da II Guerra Mundial) e está tendo que se adaptar aos ditames de uma economia que se internacionalizou muito, principalmente durante o governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, e que se rege (como diz Alan Greenspan em seu livro recente) pelas “livres forças do mercado global“.
Ademais, estamos começando a conviver com um efetivo capitalismo, onde a maior parte do seu financiamento provém do mercado de capitais, já que este ultrapassou (em giro de recursos) o montante daquele que o Estado destina para financiamento de atividades econômicas.
Neste sentido, a indústria brasileira de TICs terá que se acostumar com uma nova cultura de fazer negócios, já que o Mercado de Capitais passa a ser o locus das negociações mais relevantes e sinalizará as tendências futuras. Palavras de ordem daqui para frente serão, fusões, aquisições, private equity, IPO, governança corporativa, BOVESPA, acionistas, dividendos, enfim, um novo vocabulário que terá que ser digerido pelos players do setor.
Isto não quer dizer que se prescinda de coisas já estabelecidas, como os mecanismos tradicionais governamentais de financiamento, tais como os instrumentos do CNPq, da FINEP, do BNDES, além de tantos outros. Mas estes instrumentos se voltarão mais marcadamente para as start ups, e micro e pequenas empresas;
* Suplementando a previsão anterior, 2008 será o ano em que ficará mais visível a limitação da capacidade do Estado em liderar o processo de desenvolvimento desta indústria, em uma economia em processo de crescimento de mais de 4,0% ao ano. Para que se tenha uma idéia do quanto esta fonte está se tornando cada vez mais frágil em responder aos desafios de crescimento do setor (apesar dos esforços das atuais equipes dirigentes), basta que se observe os números do Ministério da Ciência e Tecnologia-MCT, um ministério sempre lembrado por aqueles que lidam com TICs no país.
Segundo dados do MCT, nos últimos 06 (seis) anos caiu o investimento público em C&T (como proporção do PIB brasileiro), de 0,73% no ano 2000 para 0,68% em 2006, e aumentou o investimento privado de 0,48% do PIB (em 2000) para 0,68% (em 2006), como pode ser visto na Figura 1 a seguir.
Figura 1
Em termos do investimento público em P&D, este caiu de 0,55% do PIB em 2000 para 0,48% em 2005, enquanto o investimento privado subiu de 0,39% do PIB para 0,49% (ver Figura 2 abaixo).
Figura 2
* O ano de 2008 será também o ano em que mais se perceberá o quanto estamos perdendo a corrida nas taxas de crescimento desta indústria em relação aos competidores internacionais. Para que se tenha um noção disto, basta que se faça uma comparação entre o Brasil e os países que compõem os BRICs (Brasil, Rússia, China e India).
O mais recente OECD Information Tecnology Outlook (uma importante fonte de informações do setor de TICs mundial) é de 2006. A partir de suas evidências recentes, organizamos uma tabela (abaixo) representativa de dados agregados deste importante documento para os países que formam os hoje chamados BRICs.
Calculamos então, a partir desta tabela, as taxas de crescimento médio anual de todos os segmentos de TICs dos BRICs. Observando somente as taxas gerais de gastos em TICs, tem-se (e também pela ordem decrescente de apresentação na tabela): Brasil (17,15% a.a.); Rússia (39,97% a.a.); Índia (36,03% a.a); China (33,04% a.a.).
Surpreende, nos dados da tabela, a grande diferença nas taxas de crescimento dos gastos com TICs entre os BRICs, evidenciando o fato de que o Brasil é o país que menos tem crescido neste importante segmento econômico no período selecionado, ou seja, abaixo da metade das taxas de crescimento dos demais países;
* As previsões acima nos levam a acreditar que é chegado o momento de repensar profundamente o papel da Lei de Informática no país. Mesmo tendo sido implantada (no seu formato mais conhecido) através da Lei Nº. 8.248 (de 23/10/1991), é oportuno se questionar: qual foi o efetivo impacto econômico da Lei de Informática (atualmente Lei Nº. 10.176, de 11/01/2001), regulamentada pelo Decreto Nº. 5.906 (de 26/06/2006) no crescimento deste setor no Brasil? Logo, 2008 será um importante ano para se pensar o papel desta lei para as atuais necessidades de crescimento desta indústria no país;
* 2008 será também o ano onde se percebrá se a TV Digital crescerá (ou não) no seu atual modelo de negócios. Apesar da existência do Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre- SBTVD-T, criado pelo Decreto Nº. 5.820, de 29/06/2006, uma pergunta que não se pode deixar de fazer é: qual é a carga tributária incidente sobre os equipamentos da TV Digital, e como ela impacta no crescimento desta televisão?
* O ano de 2008 será o ano de definição de um modelo de negócio para Banda-Larga no país. A Sociedade dos dias atuais está se tornando cada vez mais informacionalmente e visualmente orientada. A computação pessoal facilita o fácil acesso, a manipulação, o armazenamento, e a troca de informação.
Estes processos demandam transmissões de dados que sejam confiáveis. Ou meios, ou mídias, para a comunicação de dados estão se tornando cada vez mais diversos. Comunicar documentos por imagens e o uso de terminais de alta resolução gráfica oferecem um modo mais natural e informativo de interação humana que somente voz e dados. As vídeo-conferências incrementam as interações entre grupos à distância. Os vídeos de entretenimento de alta-definição melhoram a qualidade das imagens, mas demandam taxas de transmissão muito maiores.
Estes novos requerimentos de transmissão de dados devem demandar novos meios de transmissão além daqueles atuais dos sobrecarregados espectros de freqüência de rádio. Uma moderna infra-estrutura de telecomunicações (tais como as redes de banda-larga) deve oferecer todos estes diferentes serviços (multi-services) ao usuário final.
Apesar de o Brasil ter dado passos importantes na implantação de uma infra-estrutura de banda-larga, como foi o caso da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa-RNP, do Ministério da Ciência e Tecnologia-MCT, e dos esforços do Comitê Gestor da Internet no Brasil, muito pouco ainda se conhece sobre o impacto econômico destas infra-estruturas.
Janeiro 2, 2008 às 8:24 pm
[...] do Jornal do Commércio. Uma pitada das nossas previsões feitas na semana passada (ver http://jccavalcanti.wordpress.com/2007/12/28/minhas-previsoes-para-tics-em-2008/) foi reproduzida naquele jornal, que você leitor assinante do JC pode acessar [...]
Janeiro 5, 2008 às 4:27 am
[...] de josé carlos cavalcanti [da creativante] para a indústria de TICs no brasil estão bem aqui. entre [...]