AULA 5

Sociedade Contemporânea

Esta aula é para tratarmos brevemente de questões relativas à sociedade em que vivemos.  Esta discussão é mais cara aos sociólogos (aliás, é a razão da própria existência da Sociologia).  Neste sentido, para aqueles que desejarem se aprofundar em leituras sociológicas, indico o livro Sociology, do Prof. Anthony Giddens, inglês e Diretor da London School of Economics, cujo perfil pode ser visto aqui.

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Este livro tem sua tradução para o português, e os temas que são abordados são os seguintes:                 

1. O Que é Sociologia?
2. Cultura e Sociedade
3. Um Mundo em Mudança
4. Interação Social e Vida Cotidiana
5. Gênero e Sexualidade
6. Sociologia do Corpo: Saúde, Doença e Envelhecimento
7. As Famílias
8. Crime e Desvio
9. Raça, Etnicidade e Migração
10. Classe, Estratificação e Desigualdade
11. Pobreza, Previdência Social e Exclusão Social
12. Organizações Modernas
13. Trabalho e Vida Econômica
14. Governo e Política
15. A Mídia e as Comunicações de Massa
16. Educação
17. Religião
18. As Cidades e os Espaços Urbanos
19. Crescimento Populacional e Crise Ecológica
20. Métodos de Pesquisa Sociológica
21. O Pensamento Teórico na Sociologia

Outra referência também importante, é a do livro Sociologia: sua bússola para um novo mundo, de Robert BRYM, John LIE, Cynthia Lins HAMLIN, Remo MUTZENBERG, Eliane Veras SOARES & Heraldo SOUTO MAIOR, editado pela Editora Thomson, São Paulo, 2006, com 609 páginas. 

Como apresentado no site da editora, este livro enfatiza quatro aspectos principais, em sua maioria ausentes nos livros-texto de introdução à sociologia disponíveis no mercado editorial brasileiro: o estabelecimento de conexões entre o indivíduo e o mundo social; a ênfase no “como pensar” sociologicamente e não no “o que pensar”; a diversidade de uma perspectiva global; e aspectos contemporâneos da sociedade brasileira.

Neste livro, é utilizada uma série de recursos pedagógicos e metodológicos, como a introdução de histórias pessoais dos autores, seções relativas a políticas sociais contemporâneas, descrição de padrões sociais que levam ao questionamento da posição que o aluno ocupa na sociedade etc.

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Para os fins do nosso curso, vou restringir a discussão aos trabalhos de dois sociólogos de tradição francesa.  E a minha justificativa para isso é a seguinte.  Na história do pensamento econômico vimos que os clássicos trataram a sociedade em termos de basicamente três classes sociais: os donos de terras, os capitalistas, e os trabalhadores (camponeses e operários).

Esta é uma leitura da sociedade que corresponde muito bem ao perfil da sociedade daquele período, marcadamente o da alvorada da Revolução Industrial.  Ocorre que a sociedade dos tempos de hoje é muito diferente daquela da transição da sociedade agrícola para a industrial, e mesmo desta última.   Portanto, se alguém quer entender como se conforma a sociedade dos dias atuais, este não pode fugir do assunto classes sociais nos tempos de hoje.

Neste sentido, a pergunta que sempre coloco aos estudantes é esta: dá para entender a sociedade hoje partindo da classificação social que os clássicos adotaram?  Sendo assim, tento colocar para eles que na minha opinião os sociólogos que mais apresentam modelos  de classes sociais consentâneos com a realidade atual são Pierre Bourdieu e Bernard Lahire.

Do primeiro eu me apoio muito em sua obra mais extensa, o livro “Distinção: Uma Crítica Social do Julgamento do Gosto”, de 1979. E do segundo, eu me baseio mais no seu livro intitulado “A Cultura dos Indivíduos: Dissonâncias culturais e a distinção de si”, de 2004.

O livro Distinção é um verdadeiro tratado de Sociologia e Economia. Contém 613 (seiscentos e treze) páginas na versão em inglês (que é a que possuo; fico imaginando quantas são em francês!) e foi subdividido em três partes, compreendendo oito capítulos, além de conclusão, posfácio, apêndices, notas, créditos e índices. É importante dar um breve destaque aqui ao que constitui este magnífico livro, já que pouquíssimas pessoas no Brasil tiveram acesso a ele.

Bourdieu estava preocupado em apontar (já no final da década de 60 do século passado) que há uma Economia da Cultura na Sociedade, mas que ela tem uma lógica específica, e foi exatamente esta lógica que ele procurou descrever neste seu extenso livro.  Sua parte I (intitulada “Uma Crítica Social do Julgamento do Gosto”) contém um capítulo, “A Aristocracia da Cultura”, que é composto de duas seções, a saber, “Os Títulos da Nobreza Cultural” e o “Pedigree Cultural”.

A parte II se intitula “A Economia das Práticas”, subdividido em três capítulos e sete seções: a) “O Espaço Social e sua Transformação”; b) “O Habitus e os Espaço dos Estilos-de-Vida”; e, c) “A Dinâmica dos Campos”. Já a parte III foi denominada “Gostos de Classes e Estilos-de-Vida”, e tem quatro capítulos, intitulados: a) “O Senso de Distinção” (com quatro seções); b) “Reputação Cultural”, com oito seções; c) “A Escolha do Necessário”, com duas seções; e, d) “Cultura e Política”, com doze seções. A Conclusão, intitulada “Classes e Classificações”, contém cinco seções.

Ou seja, um verdadeiro tratado, que é trabalhoso para alguns profissionais, que dirá para estudantes, muitas vezes pouco afeitos à leitura mesmo de livros muito mais simples! Procurando extrair deste livro os elementos essenciais para o meu argumento, inicio com aquilo que considero ser o mais importante da sua visão espacial da sociedade. Para Bourdieu o “espaço social” é hierarquizado pela desigual distribuição de diferentes capitais, e a descrição da sociedade em termos de “espaço social” permite enfatizar a dimensão relacional das posições sociais. Sendo assim, as diferentes formas de capital que permitem estruturar o espaço social e que definem as oportunidades na vida são:

- Capital Econômico: constituído pelos diferentes fatores de produção (terras, fábrica, trabalho) e pelo conjunto dos bens econômicos; renda, patrimônio, bens materiais;
- Capital Cultural: corresponde ao conjunto das qualificações intelectuais produzidas pelo sistema escolar ou transmitidas pela família. Este capital pode existir sob três formas: em estado incorporado, como disposição duradoura do corpo (por exemplo, a facilidade de expressão em público); em estado objetivo, como bem cultural (a posse de quadros, de obras); em estado institucionalizado, isto é, socialmente sancionado por instituições (como os títulos acadêmicos);
- Capital Social: se define essencialmente como o conjunto das relações sociais de que dispõe um indivíduo ou grupo. A detenção deste capital implica um trabalho de instauração e manutenção das relações, isto é, um trabalho da sociabilidade: convites recíprocos, lazer em comum, etc;
- Capital Simbólico: corresponde ao conjunto de rituais (como as boas maneiras ou o protocolo) ligados à honra e ao reconhecimento. Afinal, apenas o crédito e a autoridade conferem a um agente o reconhecimento e a posse das três outras formas de capital. Ele permite compreender que as múltiplas manifestações do código de honra e das regras de boa conduta não são apenas exigências de controle social, mas são constitutivas das vantagens sociais com conseqüências efetivas.

Neste livro Bourdieu descreve a situação da classe média no mundo moderno, focando na burguesia francesa, através dos seus gostos e preferências. Segundo ele, no nosso cotidiano nós constantemente escolhemos entre aquilo que achamos ser esteticamente prazeroso e aquilo que achamos ser pura “moda”, ou é feio, ou cafona!

Mais salientemente, Bourdieu nos ensina que as diferentes escolhas que as pessoas fazem são todas elas distinções, ou seja, escolhas feitas em oposição àquelas feitas por pessoas de outras classes. Para ele o mundo social funciona como um sistema de relações de poder e como um sistema simbólico, em que distinções de gosto se tornam a base do julgamento social.

Neste sentido é fundamental entender sua visão espacial da sociedade. Para Bourdieu o “espaço social” é hierarquizado pela desigual distribuição de diferentes capitais, e a descrição da sociedade em termos de “espaço social” permite enfatizar a dimensão relacional das posições sociais. Deste modo, as diferentes formas de capital que permitem estruturar o espaço social e que definem as oportunidades na vida são o capital econômico, o capital cultural, o capital social e o capital simbólico.

Segundo Bourdieu, a sociedade é formada por um conjunto de “campos sociais” (tais como o campo acadêmico, o campo do direito, o campo desportivo, etc.), mais ou menos autônomos, atravessados por lutas entre classes. Para ele, o mundo social é também o lugar de um processo de diferenciação progressiva. A evolução das sociedades tende a fazer com que apareçam universos, áreas (campos) produzidos pela divisão social de trabalho. Assim, os campos não são espaços com fronteiras estritamente delimitadas, totalmente autônomas. Eles se articulam entre si, e a forma como se articulam compõe o universo de socialização.

Ao caracterizar um processo de estruturação social, Bourdieu introduz o seu conceito de habitus de classe e o relaciona ao seu entendimento de classe social. Para Bourdieu, classe social deve ser tratada em relação não com o indivíduo ou com uma população (i.e., um agregado de indivíduos), mas sim com o habitus de classe, que é definido como um sistema socialmente constituído de disposições (tendências, aptidões, inclinações, talentos) que orientam pensamentos, percepções, expressões e ações.

No livro “Distinção”, onde Bourdieu destaca a existência de uma Economia dos Bens Culturais, ele explora criativamente a hipótese de que o “gosto” é um marcador de classe, e que o consumo de bens culturais, consciente e deliberadamente ou não, preenche uma função social de legitimar diferenças sociais.

Como a distinção social baseada no gosto não se limita aos artefatos da cultura legítima, mas abrange todas as dimensões da vida humana que implicam alguma escolha –vestuário, comida, formas de lazer, opções de consumo, etc., – o gosto funciona como um sentido de distinção por excelência, permitindo separar e unir pessoas e, consequentemente, forjar solidariedades ou constituir divisões grupais de forma universal (tudo é gosto) e invisível.

Para Bourdieu, mesmo as escolhas mais pessoais, desde a preferência por carros, compositor ou escritor até a escolha do parceiro sexual, são, na verdade, frutos de “fios invisíveis” que interligam interesses de classe, fração de classe ou, ainda, posições relativas em cada campo das práticas sociais. Esses fios tanto consolidam afinidades e simpatias, que constituem as redes de solidariedade objetivamente definidas, como forjam antipatias firmadas pelo preconceito.

Assim sendo, o processo de socialização, ao realizar a incorporação dos habitus de classe, produz a “filiação de classe” dos indivíduos, reproduzindo ao mesmo tempo a classe enquanto grupo que compartilha o mesmo habitus. Este conceito está na base da reprodução da ordem social. Essa filiação se manifesta em diferentes posições na divisão social do trabalho a partir de uma variedade de indicadores de capitais possuídos pelos indivíduos ao longo do sistema ocupacional (os capitais aqui citados.

Neste “modelo espacial” de sociedade proposto por Bourdieu, podem ser observados três eixos ortogonais (que representei, à minha maneira, na figura a seguir). O primeiro eixo, diferencia posições de acordo com o volume de capital (econômico e cultural) possuído pelos incumbentes. O segundo eixo diferencia posições no interior das situações de classes, que são divididas de acordo com a composição do capital possuído pelos incumbentes. O terceiro eixo, diferencia posições de acordo com as trajetórias seguidas pelos incumbentes; em outras palavras, de acordo com as mudanças ou estabilidades (conversões de capital) experimentadas ao longo do tempo no volume e na composição dos capitais dos incumbentes.

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Vários exemplos (ou tipos) podem ser usados como evidência da aplicação deste modelo. Aqueles que mais podem ser chamados à atenção, pelo menos no caso do Brasil, são facilmente identificados a partir de exemplos da economia dos bens culturais, como as novelas.

Em recente novela transmitida num canal aberto de grande audiência nacional, um novo rico empresário do jogo do bicho, oriundo da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, optou por “apagar” o seu passado contraventor adotando um comportamento “dentro da lei”. Nessa sua trajetória, ele vivenciou uma mudança na composição e volume do seu capital econômico (para mais), porém carecia de capital cultural. Por esta razão, decidiu contratar um “personal stylish” para conquistar um capital cultural que não detinha.

Este seu “personal stylish”, por seu turno, era um outrora rico que havia perdido capital econômico (empobrecera) mas, não perdera o seu capital cultural. Outra personagem, a da protagonista da novela, também converteu sua posição social, de pobre migrante nordestina, para uma empresária de sucesso no ramo da construção civil, contando com amplo capital social na região em que residia.

Em resumo, somente tendo em mente esta abordagem de Bourdieu, definir classe social apenas observando o capital econômico das pessoas é uma visão, no mínimo, simplista, de uma sociedade que cada vez mais assume diferentes papéis em função de gostos que se tornam mais cada vez mais distintos.

Breve colocarei aqui o trabalho de Bernard Lahire!

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Uma resposta para “AULA 5”

  1. itamarpatrocinio@me.com Disse:

    Muito bom para eu entender minha aula de Sosiologia que eu não tinha entendido absolutamente nada…. Aqui eu entendi como tudo funciona!!! Obrigado

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