AULA 4

By jccavalcanti

EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO ECONÔMICO

Este é um dos grandes temas da Ciência Econômica: a evolução de como os economistas pensaram o mundo!  Tenho grande admiração pelo tema, e vários livros sobre o assunto.   A tradição acadêmica é mais voltada para a História do Pensamento Econômico, que lida com diferentes pensadores e teorias nos campos da Economia Política e de “Economics” (separação própria dos anglo-saxões, para designar uma “Economia” que trata pouco das preocupações da Política), desde o mundo antigo até os dias atuais (há um site na Internet muito interessante sobre a História do Pensamento Econômico, produzido pelo Departamento de Economia da New School for Social Research, em Nova York, EUA, que pode ser uma boa referência para qualquer interessado: http://cepa.newschool.edu/het/home.htm ).

Tenho uma preferência particular, todavia, para observar os traços evolutivos, mais do que a história propriamente dita.  E aí me aproximo mais daquele viés que também é conhecido na literatura econômica como Metodologia do Pensamento Econômico, que também tenho vários livros, dentre os quais destaco “The Methodology of Economics or How Economists Explain”, do Prof. Mark Blaug, de 1980, e o seu “Economic theory in retrospect”, de 1997.

Apesar do interesse deste escriba, este assunto desperta muito pouca atenção dos estudantes que não são da área de Economia (e entre os estudantes do curso de Economia são poucos que abraçam este viés!), razão pela qual tento enxugar ao máximo os aspectos primordiais.

Deste modo eu inicio mostrando uma “Árvore da Economia” (figura abaixo) retirada do livro Economics, dos Profs. Paul Samuelson e William Nordhaus, em minha edição de 1998, apontando que em meu curso nós vamos acompanhar a trajetória que leva à principal tendência econômica.  Logo, indico que iremos ver muito pouco da outra trajetória que leva às economias em transição dos dias atuais (uma boa justificativa do porquê de não discutir o percurso da emergência, e “queda”, das economias ditas socialistas, pode ser encontrada no capítulo seis -”A Queda do Muro”, do livro A Era da Turbulência, de Alan Greenspan, 2007). 

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Ao mostrar tal “árvore”, passo a dar um destaque especial a Adam Smith, que é reconhecido como o pai da Economia moderna, e que se tornou conhecido ao longo da história pelo seu livro “A Riqueza das Nações”, de 1776.  Apesar de destacar Adam Smith, não deixo de mencionar as Escolas do Pensamento Econômico com as quais ele dialogava, e que ele tentava avançar em termos da explicação dos fenômenos do seu tempo: marcadamente aqueles que estavam conformando o início do que veio a ser chamado de Revolução Industrial.

Neste sentido, comento um pouco sobre os Mercantilistas e os Fisiocratas.   Os Mercantilistas acreditavam : que barras de ouro eram a essência da riqueza; na regulação do comércio para produzir um influxo de ouro e prata; obrigações de proteção de bens manufaturados importados; no encorajamento das exportações, e uma ênfase no crescimento da população, mantendo os salários baixos.

Os Fisiocratas eram um grupo de pensadores franceses que circundavam François Quesnay, médico da corte francesa, que acreditava que somente a agricultura é que rendia um excedente (que Quesnay chamava de “produto líquido”).  Para eles a manufatura exigia tanto valor para seus insumos de produção quanto para seus produtos, não criando produto líquido.

A partir daí dou início a uma razoável sobre a contribuição de Adam Smith.  Este autor era Professor da Universidade da Escócia e ensinava Filosofia da Moral.  Um dos seus livros mais conhecidos (depois do seu famoso ”Uma Investigação sobre a Natureza e Causas da Riqueza das Nações, escrito durante os anos de 1767 e 1776) foi a Teoria dos Sentimentos Morais. E foi baseado na sua visão da nautreza humana, unindo-a a uma leitura da História, que Adam Smith escreveu seu “A Riqueza das Nações”.

Este livro é o primeiro verdadeiro tratado em Economia (Economics).  Ele contém uma sólida essência da Teoria da Produção e da Distribuição, seguido de uma revisão do passado à luz destes princípios abstratos, e conclui com uma bateria de aplicações de políticas, sendo o todo permeado pela  questão simples do sistema da liberdade natural dos indivíduos, em direção ao qual Adam Smith via o mundo se movendo.

O tema central que inspirou ”A Riqueza das Nações” é a noção de egoísmo (ele via o Homem como uma criatura de interesse próprio, que apesar disto, era capaz de fazer julgamentos morais com base em considerações outras que não puramente egoismo, tais como a faculdade de simpatia) .  Mesmo que moralmente repreensível (o egoísmo), ele pode, todavia, oferecer um forte lubrificante para uma “sociedade comercial”:

Não é pela benevolência do açougueiro, cervejeiro, ou o padeiro, que nós devemos esperar nosso almoço, mas em relaçao ao seus próprios interesses“! (nunca me indaguei sobre isso, mas talvez esteja nesta frase de Adam Smith a origem da expressão “there is no free lunch“, sugerida nos anos 70s, do século passado, pelo Prof. Milton Friedman!).

Smith atentou para o fato de que sob certos arranjos sociais, os quais nos dias de hoje nós podemos chamar de “ambiência competitiva”, os interesses privados são harmonizados com os interesses sociais como se existisse uma “Mão Invisível” nos guiando para atingir o bem comum.  Nas palavras de Bernard Mandeville, a competição transforma o que são de fato os “vícios privados” em “benefícios públicos”.

Mas o que mais me fascina na contribuição de Adam Smith é a profundidade com a qual ele se dedicou a compreender o verdadeiro fundamento que está na busca incessante dos indivíduos em produzir bens, e, consequentemente, gerar riqueza. E este importante aspecto foi recentemente analisado pelo economista e filósofo Eduardo Gianetti da Fonseca.

O objetivo de Gianneti é o de mostrar como David Hulme (filósofo inglês) e Adam Smith partilharam algumas noções fundamentais sobre os funcionamentos da mente humana e sobre os modos pelos quais o nosso comportamento na vida prática e os hábitos mentais básicos formadores de crenças são afetados por fatores sub-racionais.

Segundo Gianetti, Smith e Hulme trabalhavam com um duplo conceito de paixão. Primeiro vinham as “paixões do corpo”, ou seja, aqueles apetites que nascem da necessidade de preservar fisicamente o indivíduo e perpetuar a espécie. Esses são os motores primários dos esforços econômicos.

Mas à medida que a sociedade se torna mais complexa, e passa de um sistema de subsistência baseado na caça e na pastagem para outro baseado na agricultura e no comércio, as “paixões mentais”, ou seja, “aquelas que têm sua origem em algum hábito particular da imaginação” ganham um papel mais proeminente como forças motivadoras no suprimento do trabalho e esforço econômico.

Um exemplo disto, aponta Gianetti, é a discussão de Smith sobre o conjunto de motivos associados com o intenso empenho e a assiduidade do agente econômico na busca da riqueza material- o conhecido desejo de “melhorar as próprias condições” que é considerado responsável pela “opulência e pelo crescimento econômico das nações”.

A partir deste ponto eu começo a interagir com os estudantes perguntando sobre o presente. Afinal, pergunto, por que as pessoas buscam tanto a riqueza?  O que ele acham que faz a riqueza ter esse brilho tão ofuscante?

Gianetti, dando sequência ao raciocínio que vinha desenvolvendo, se pergunta; “o que, então, na teoria de Smith, “confere à prosperidade todo o seu ofuscante esplendor” ? A resposta de Adam Smith é a seguinte. Provavelmente não há paixão mais poderosa, entre as que derivam da imaginação, do que o desejo de comandar a afeição, o respeito e a admiração de outros homens. Inversamente, nada parece ser mais temido do que a indiferença e o escárnio daqueles entre os quais crescemos e fomos educados.

Neste momento, eu destaco que o que Adam Smith estava observando era de fato o crescimento da produção de riqueza material. A figura abaixo (retirada do artigo “The Industrial Revolution: Past and Future”, do Prof. Robert Lucas, escrito em 2003 para o Federal Reserve Bank of Minneapolis, EUA) dá um destaque especial  a este aspecto.

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Além de me valer desta figura para representar o espantoso aumento da riqueza material a partir da Revolução Industrial (do século XVIII em diante), gosto sempre de questionar os estudantes sobre o de fato que motivou o crescimento das duas curvas: a de população e a de produção (aguço os pensamentos colocando a perspectiva do nosso futuro: afinal, vocês acham que nossa população vai tomar que trajetória no futuro? e a produção?).

E isto me dá margem para trazê-los “de volta ao presente e ao futuro”, quando mais uma vez os pergunto que tipo de riqueza eles acreditam que nós estamos ou estaremos criando no futuro.  Neste instante gosto de introduzir a distinção entre dois conceitos: a riqueza material e a riqueza expandida.

A Economia define Riqueza como sendo o valor dos ativos possuídos, num dado ponto do tempo. Riqueza é um estoque (como um volume de um lago), enquanto Renda é um fluxo por unidade de tempo (como um curso de um rio). A riqueza de uma família inclui os itens tangíveis (casa, carro e outros bens de consumo durável, e terra) e recursos financeiros (tais como dinheiro, caderneta de poupança, títulos, ações). Tudo aquilo que é de valor é chamado de ativos, enquanto aqueles recursos que são devidos são chamados de passivos. A diferença entre os ativos e os passivos é denominada de Riqueza ou Riqueza Líquida.

A Riqueza Expandida é um conceito que vai além da sua dimensão de valor contábil material. Ela inclui a dimensão psicológica. Ou seja, ela inclui tanto o Bem-­Estar que é derivado da posse, e utilização, dos itens tangíveis e recursos financeiros, quanto. outras características derivadas, tais como paz mental, boa saúde, o sentimento de pertencer a uma comunidade, segurança, liberdade de escolha e de ação,. um meio de vida sustentável, e uma fonte de renda estável.

Em contraste, a Pobreza Expandida é a falta de coisas materiais – comida especialmente, mas também a falta de trabalho, dinheiro, abrigo e vestuário -. e é a condição de vida e de trabalho em ambientes freqüentemente doentios, poluídos e arriscados. E também entendida como a ausência de poder sobre a definição da própria vida, bem como a falta de canais de voz para expressão das dificuldades, o que leva à ansiedade e o medo do futuro.

Visto isso, passo a apresentar aos estudantes uma visão de mundo para fazer uma síntese desta brevíssima varredura do tema da evolução do pensamento econômico, até então. Esta visão está representada numa espiral que desenvolvi que procura sintetizar nossa evolução, apontando para onde, acredito, estamos “nos dirigindo”.  A espiral é a da figura abaixo!

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Para fechar a aula, eu encerro com uma discussão sobre a evolução do pensamento da Escola Clássica Econômica para o da Escola Neoclássica, marcadamente tratando das Teorias do Valor Trabalho e da Teoria do Valor Utilidade, com o uso de um slide como o representado na figura abaixo.

Tal discussão é central para o que vem a seguir (logo após o encerramento desta parte, com a questão da Sociedade Contemporânea, tema da AULA 5), que é o tratamento dos Bens e Serviços, e das forças (ou leis) de Demanda e de Oferta, como propostas pelos neoclássicos, como veremos na parte de Microeconomia! 

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