Mídia e Democracia Deliberativa (5)

By jccavalcanti

The wiki principle” (O princípio wiki)

Muitas mentes são melhores do que poucas ? Esta é a pergunta que está associada ao título acima do quarto capítulo da pesquisa Nova Mídia da revista The Economist. 

Quando as pessoas expressam ceticismo acerca da mídia participativa, elas usualmente têm pessoas como Brian Chase na mente. O Sr. Chase é um homem de 38 anos, natural de Nashville, Tennessee (EUA), que até recentemente trabalhava nos níveis de gerência de uma transportadora chamada Rush Delivery e parecia destinado a permanecer inteiramente desconhecido.  Por razões só de conhecimento dele, no entanto, o Sr. Chase em maio de 2005 decidiu fazer uma brincadeira, “uma brincadeira que saiu muito errada, horrivelmente errada”,  como ele diria no jornal de sua cidade, o Tennessean.

Sua brincadeira consistiu de uma hoax entry (farsa) no Wikipedia.org, uma enciclopédia on-line gratuita que qualquer pessoa pode editar, simplesmente ao teclar um botão que diz “edite esta página”.  O Sr. Chase postou um artigo bibliográfico de Jon Seigenthaler, um distinguido jornalista (e ex-editor do Tennessean) que em 1961 assessorou Robert Kennedy, advogado geral do governo dos EUA à época.  Sr. Chase, no entanto, fabricou uma vida inteiramente diferente da do Sr. Seigenthaler, e que ele havia vivido na União Soviética, fundando uma empresa de relações públicas e, mais perniciosamente, sugeriu que ele estava implicado em assassinatos de ambos John e Robert Kennedy. 

Normalmente, tal vandalismo é corrigido em minutos no Wikipedia porque outras pessoas vêem, removem a entrada com seu próprio juízo – que, em poucas palavras, é a filosofia e o poder da inteligência colaborativa.  Este item em particular, no entanto, caiu em desgraça.  Por 132 dias, a mentira resistiu despercebida no site.  Eventualmente, algum voluntário vasculhou o vandalismo do Sr. Chase, que finalmente apareceu no último dezembro (de 2005) e pediu desculpas profusivamente a uma impressivamente graciosa Sra. Seigenthaler.  Com isto, o episódio se tornou algo digno de nota escolar na história da mídia. 

Apesar deste episódio, a promessa do Wikipedia é nada mais nada menos que a liberação do conhecimento humano – tanto pela incorporação de todo o conhecimento através de um processo colaborativo, quanto pelo compartilhamento livre do conhecimento com todo mundo que acessa a Internet.  Isto é uma idéia radicalmente popular. 

A versão em inglês do Wikipedia dobrou em tamanho em 2005 e agora (em 2006, ano da pesquisa de The Economist) tem mais de um milhão de artigos.  Por esta medida, ele é quase doze vezes maior do que a versão impressa da Enciclopédia Britannica.  Tomado pelas outras 200 línguas em que é publicado, o Wikipedia tem mais de dois milhões de artigos.   Mais de 100.000 pessoas no mundo inteiro contribuem, com um total de quatro milhões de editados entre eles.  O Wikipedia tem mais visitantes que o New York Times, CNN e outros sites mainstream.  Ele se tornou uma ferramenta virtual de pesquisa para grande número de pessoas.  E ele só tem cinco anos (seis em 2007).

O sucesso fez do Wikipedia o mais famoso exemplo de um mais amplo fenômeno wiki.  Wikis são páginas na web que permitem qualquer pessoa que é permitida acessar (logar) nelas e modificá-las.  No caso do Wikipedia, isto acontece para qualquer pessoa. 

A palavra “wiki”vem de uma palavra hawaiana para “quick” (rápido), mas também significa “what I know is ..”.  Wikis são então a mais pura forma de criatividade participativa e de compartilhamento intelectual, e representa “uma socialização da expertise”, como coloca David Weinberger, que está escrevendo um livro sobre inteligência colaborativa.

Entre as novas mídias, os wiki são o perfeito complemento dos blogs.  Enquanto blogs contêm a voz não-editada e opinativa de uma pessoa, wikis explicita e literalmente permitem a grupos de pessoas se encontrem na mesma página proverbial.  Esta é a razão principal da falha do experimento do Los Angeles Time com wikitorias, descritos no capítulo anterior.  Os wikis são bons em sumarizar debates, mas eles são são úteis em opiniões viesadas.

Os números do Wikipedia na realidade o tornam uma anomalia entre os wikis.  Joe Kraus, co-fundador do JotSpot, um provedor de software wiki, aponta que a maioria dos milhões de wikis já existentes é desenhada por pequenos, e bem definidos, grupos de pessoas.  Membros de times em empresas, por exemplo, podem usar wikis para colaborar em apresentações de projetos ou em calendários.  Wikis são comunidades, e comunidades demandam confiança, diz Sr. Kraus.  Confiança vem mais facilmente quando as pessoas envolvidas conhecem umas as outras, ou são accountable (prestam contas) aos seus contribuintes.  Dado que o tamanho ótimo de um grupo de humanos deve ser menor do que 150 membros (ver artigo 3 desta série), a maioria dos wikis deve ser pequena.

O restante deste capítulo da pesquisa de The Economist trata de alguns detalhes da forma como opera o Wipedia.  De qualquer forma, vale a pena reproduzir aqui o gráfico que a pesquisa nos brinda sobre a evolução do Wikipedia.

Amateur

Uma resposta para “Mídia e Democracia Deliberativa (5)”

  1. Amanda Costa Disse:

    ZCarlos,

    Eu acho que a wikipedia é uma idéia legal enquanto espaço de troca e de construção coletiva. Por outro lado, enquanto ferramenta de referência (que são as enciclopédias, dicionários etc.) eu devo confessar que jamais usaria a wikipedia como fonte principal de uma pesquisa. Não há a menor garantia de que a pessoa que escreveu o tópico e/ou a que revisou têm competência “acadêmica” para tal.

    Não duvido dos benefícios dos wikis, inclusive enquanto ferramenta pedagógica. Essa construção coletiva de textos me parece uma excelente oportunidade para o exercício da criatividade, da colaboração e da negociação (talvez a parte mais delicada de uma criação coletiva). Anyway… permanece uma questão. No caso específico da wikipedia, que se pretende ferramenta de referência, o seu grande apelo não se deve exatamente ao oposto dessa pretensão, ou seja, à possibilidade de o leigo escrever algumas linhas que possivelmente serão lidas por milhares de pessoas ao redor do mundo, mesmo que sejam linhas equivocadas?
    Em caso afirmativo, o sucesso da wikipedia deve-se muito mais a uma sede de interação que a uma sede de informação (ou da partilha desta)?

    Sei que o objetivo do seu post não era necessariamente abordar tais questões, mas gostaria de te ler sobre estas sutilezas.

    :)

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