Mídia e Democracia Deliberativa (4)

By jccavalcanti

Compose yourself” (Escreva você mesmo)

Este é o título do terceiro capítulo da pesquisa Nova Mídia da revista The Economist, e tem como sub-título o seguinte: “O jornalismo também está se tornando interativo, e talvez melhor”.

“Nós mudamos a política sul-coreana e o mercado de mídia, mas eu sou muito tímido para dizer isso”, declarou Oh Yeon Ho antes dele demonstrar sua própria ironia.  Mas o Sr. Oh, o fundador e chefe do Ohmy News, um jornal online, ganhou o direito de ostentar porque Ohmy é o maior exemplo de sucesso do mundo até o momento de “jornalismo cidadão” em ação.

O site de Ohmy News recebe no momento (em abril de 2006) uma média de 700.000 visitantes e 2 milhões de views por dia, o que o coloca na mesma liga dos grandes jornais.  Mas Ohmy não tem quaisquer reporters no seu quadro.  Ao contrário, ele se apóia em amadores – “cidadãos”, como o Sr. Oh prefere chamá-los- que contribuem com artigos, os quais são então editados pelo Sr. Oh, um ex-jornalista de uma revista, e alguns colegas.  O Sr. Oh gosta de pensar o Ohmy como um “playground” para hobbystas Sul-Koreanos, onde ”adultos” determinam algumas regras e daí dão credibilidade ao site.  Os artigos tendem a ser bons, diz Sr. Oh.  “Eles são altamente educados e ansiosos por mudar a sociedade”.  Ohmy desenvolveu ferramentas de feedback e sistemas de pontuação de modo que os melhores artigos subam ao topo.

Uma das grandes inovações de Ohmy é econômica.  O site tem um sistema “jarra-de-gorjetas” que convida os leitores a premiar bons trabalhos com pequenas doações.  Tudo que se tem que fazer é clicar um pequeno botão da jarra-de-gorjeta para ter debitada sua conta do celular ou do cartão de crédito.  Um artigo em particular produziu o equivalente a U$ 30,000 em somente 5 dias.  A economia própria do Ohmy parece funcionar bem.  Mesmo que originalmente o Sr. Oh tenha intencionado que a empresa fosse não-lucrativa- “meu objetivo não foi ganhar dinheiro mas criar um novo jornalismo”, diz ele – ele se tornou em uma empresa lucrativa em 2003.  Ele não divulgou quanto ele ganha, mas as receitas de propaganda e syndication (de outros sites da Internet que rodam os artigos de Ohmy) parecem indicar que ele vai bem.  

O sucesso de ohmy já tem tido uma ampla ramificação na indústria da mídia da Coréia do Sul.  Apesar de não ter matado qualquer jornal ou televisão coreano, forçou todos eles a se ajustarem ao se tornarem mais parecidos com o Ohmy.  Vários sites de jornais, por exemplo, agora têm feedback e locais de conversação na base dos artigos e estão tentando interagir mais com os leitores.  Sr. Oh, que deixou sua carreira na mídia mainstream porque ele estava chateado com o que ele percebia do seu viés conservador, também reconhece que Ohmy ajudou a melhorar o balanço.  Se as escalas da mídia favoreciam 80% os conservadores, ele acha,  Ohmy reduziu isto para 60%; ele deseja 50%.

O quê funciona e o quê não funciona

A pesquisa de The Economist aponta para uma série de outros exemplos (de sucesso ou não) similares aos de Ohmy, principalmente do que ela chama de “jornalismo cidadão” nos EUA.  Neste rol está a Current TV, criada por Al Gore (ex-presidente dos Estados Unidos) e seu sócio Joel Hyatt.  A Current TV é um canal de televisão a cabo que encoraja seus espectadores a contribuir com seus videos, e eles o fazem.  Praticamente 30% do tempo do canal é para o que eles chamam VC2- Viewer-created content- conteúdo criado pelo espectador.

Para a sociedade como um todo, todos estes novos talentos – de blogueiros, que são jornalistas no senso clássico, até os jornalistas cidadãos – devem contar para algo surpreendentemente positivo.  “Quanto mais jornalismo melhor; não me importo quem faz”, diz Dan Gillmor, um jornalista que saiu do San Jose Mercury News, um jornal amplamente lido no Vale do Sicílio, para fundar Grassroots Media, um experimento de jornalismo cidadão.  Isto não é, no entanto, como jornalistas profissionais, ostensivamente falando em defesa do público, vêem a coisa !

Duramente impresso

A indústria dos jornais está num perfeito vendaval.  Nos EUA a circulação tem caído gradualmente desde 1990, de acordo com Editor & Publisher, um jornal comercial baseado em informação sobre a imprensa.  A tendência em outros países é a mesma.  A maioria dos jovens não lê um jornal diário de forma alguma. 

Para tornar a coisa ainda pior (e para desvalorizar o argumento de que a sociedade deve preservar os jornais como fontes “confiáveis”de notícias), a indústria tem estado sob uma séire de escândalos, o mais notório sendo o fiasco do jornalista Jayson Blair, do New York Times, que produziu/falsificou suas próprias estórias.  De acordo com The State of the News Media, um projeto americano de pesquisa anual, a indústria já demitiu mais de 3.500 profissionais desde 2000, algo em torno de 7% do total.

As tendências na propaganda- e particularmente nos classificados, um inerentemente meio gerado pelo usuário – são piores ainda.  Primeiramente, os propagandistas têm sido mais lentos em ajustar que os jornais.  Depois de admitirem um iníco retardado, os jornais estão aogra se dando melhor em ajudar seus leitores a se moverem para as ofertas on-line.  Mas os propagandistas não valoram as duas mídias do mesmo modo.  Lauren Rich Fine, um analista financeiro de jornais, estima que para cada dólar de propaganda que um jornal recebe de um leitor da edição impressa, ele recebe somente 20 a 30 centavos pelo seu equivalente on-line.   Mesmo assim, a propaganda on-line está crescendo 30% ou mais por ano.  Pip Coburn, um estrategista de investimentos, estima que mesmo jornais como o New York Times, que é amplamente lido on-line, recebe somente 5 a 10% das suas receitas da web.

A velha mídia luta de volta

Mas crescentemente os barões dos jornais, não satisfeitos em presidir o lento declínio, querem abraçar a revolução.  Um deles é Robert Murdoch, presidente da News Corportation, um dos maiores editores de jornais do mundo que fala inglês.   Em 2005 ele disse na American Society of Newspapers Editors que “como uma indústria, muitos de nós têm sido marcadamente complacentes”.   Jovens leitores, disse Sr. Murdoch, “não querem se apoiar uma figura divina de cima que diga para eles o que é importante, e eles não querem que as notícias sejam apresentadas como um evangelho.  Deste modo, o quê os jornais precisam fazer on-line para se ajustarem ? O nativo digital não envia mais uma carta para o editor.  Ele (a) vai on-line e cria um blog.  Nós precismos ser o destino para estes blogueiros”.  Logo depois de seu discurso, Murdoch comprou o MySpace, um site de blogging e redes-sociais amplamente popular entre os jovens.

O restante deste capítulo da pesquisa de The Economist trata da questão de como tornar os jornais em “lugares de conversações” e de como a interatividade pode ser desenvolvida.  E a sugestão que é dada é a de uma mudança do atual enfoque dos  jornais para um que seja de acesso livre e permanente de várias conexões.  Ao invés de assumir que os leitores irão começar da página inicial, os editores deveriam esperar que os leitores venham de qualquer ponto, provavelmente tendo vindo de uma página do Google, ou de um blog, ou de um e-mail de um amigo com um link (conexão).  O próximo passo seria o encorajamento da participação dos usuários.

Enfim, são várias as mudanças que estão redefinido a mídia e a forma como o público em geral está interagindo com ela.  Com isso muda também o processo democrático !

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