Preço do capital humano de TI pode subir (muito) !

Duas matérias recentes publicadas pelo jornal Gazeta Mercantil me chamaram bastante a atenção.  A primeira, publicada no dia 12/01/07, intitulada “Em expansão acentuada, B2B brasileiro chega à maturidade“, assinala que compras digitais poderão chegar a 70% do total comercializado em 2009 pelas empresas.  Segundo a previsão da Associação Brasileira de E-Business (E-Business Brasil), 2006 deve ter movimentado R$ 314 bilhões em compras eletrônicas, enquanto o mundo todo transaciona mais de US$ 5 trilhões.  Um crescimento de 38% em relação a 2005 no mercado local.

A outra matéria, intitulada ““Apagão” ameaça TI“, e divulgada no dia 15/01/07, ressalta que multinacionais têm dificuldade para contratar, e que déficit de pessoal pode chegar a 100 mil até 2010.   Segundo a matéria, a indústria brasileira de software e serviços está ameaçada de sofrer um “apagão” até o final da década.  E o atual ritmo de crescimento poderá se reverter.  “Em três anos podemos ter fábricas de software fechando por falta de profissionais”, garante o presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro), Roberto Mayer.

O que ambas matérias revelam é a dupla face de um mesmo problema.  Se de um lado o setor de TI no Brasil tem demonstrado sinais de vigor e crescimento, por outro lado fica cada vez mais visível o estrangulamento e impossibilidade de manter este ritmo de crescimento em função da incapacidade de oferta de capital humano, em volume, prazo e qualidade, para atender às demandas do mercado.

Um simples exercício das leis de oferta e demanda por trabalho pode facilmente apontar que, nestas circunstâncias, o preço do capital humano pode subir em função do estrangulamento em sua oferta.  Parta-se, inicialmente, da curva de oferta de trabalho humano. Ela mostra o número de trabalhadores que estão desejosos e aptos para trabalhar em uma ocupação a diferentes níveis salariais.  Já a curva de demanda por trabalho, mostra o número de trabalhadores que as empresas estão desejando e estão aptas a contratar a diferentes salários.

Via de regra, uma empresa contrata um trabalhador somente se a receita adicional que ela recebe ao assim fazer cobre o seu custo adicional.  Não faz sentido contratar alguém por R$ 50,00 por hora se esta pessoa somente proporciona um extra de R$ 25,00.  A receita adicional que um trabalhador rende para uma empresa, por seu turno, depende tanto do produto adicional que ele (ou ela) contribue para a empresa como do preço daquele produto.

A curva de demanda por trabalho é inclinada para baixo por causa da lei dos retornos decrescentes (não vamos discutir aqui se isso é válido para os segmentos produtores de conhecimento, que apresentam retornos crescentes; tal discussão fica para um outro post).  À medida que uma empresa contrata mais e mais trabalhadores, cada trabalhador adicional contribue menos, e menos produto adicional-e receita- para a empresa (não por causa dos trabalhadores, mas porque provalvelmente não há mais capital fixo na empresa suficente absorver mais capital humano). 

Qualquer coisa que altere tanto a quantidade de produto que os trabalhadores podem produzir, como o preço daquele produto, irá mudar a curva da demanda por trabalho.  Desta forma, é necessário colocar as curvas de oferta e de demanda juntas para que se possa explicar os movimentos que afetam o equilíbrio neste mercado.

Vamos considerar um exemplo no gráfico abaixo.  Suponha que So seja a curva de oferta do número de trabalhadores num tempo to, que Do seja a curva de demanda do número de trabalhadores que as empresas estão desejando contratar no tempo to, e que Eo seja o ponto de equilíbrio deste mercado, onde Po é o preço que os trabalhadores estão desejando receber por seu trabalho e que Qo é a quantidade de trabalho que está sendo contratada.

Imagine agora que há um aumento na demanda de trabalhadores por parte das empresas, por algum motivo qualquer (expansão de mercados, por exemplo).  Logo, a curva da demanda se deslocará de Do para D1.  Como esse aumento de demanda não é acompanhado, de imediato, por um correspondente aumento da oferta de trabalho, o novo ponto de equilíbrio, mantidas tais condições, só será obtido se for elevado o patamar de salário para o nível P1, encontrando, na intersecção da curva de oferta inicial, o ponto de equilíbrio E1.   Como leva algum tempo para que a oferta de novos trabalhadores qualificados seja colocada no mercado (como resposta ao aumento da demanda), deslocando assim a curva de oferta de So para S1 (supondo também que não haja desemprego no setor), o equilíbrio inicial se restauraria em E2, quando a curva S1 encontrasse a curva D1.

Comparativa

Neste espírito, observando as duas matérias acima comentadas, é de se esperar que o preço do capital humano em TI no Brasil possa subir para um patamar mais elevado, a não ser que medidas (efetivas) de oferta de pessoal qualificado sejam colocadas à disposição do mercado num prazo relativamente curto. 

Com a palavra o sistema nacional de educação superior do país ! 

4 Respostas para “Preço do capital humano de TI pode subir (muito) !”

  1. Marcos Disse:

    Parece que o mercado está ávido por profissionais com alta capacitação, que estão em falta. Mas, conversando com profissionais de TI e RH, tenho a impressão que o mercado está saturado de programadores de nível básico e técnicos de sistemas. É como uma pirâmide com base inchada, mas sem topo. O que você acha?

  2. jccavalcanti Disse:

    Marcos,

    Não creio que haja uma saturação; existe demanda até de programadores de linguagens do passado (como Cobol) para atender às demandas de sistemas legados. De qualquer forma, neste nível que você fala, o que realmente falta é qualificação (cursos de certificação de empresas líderes são fundamentais).
    Grato,
    JCC

  3. Offshoring reverso « JCC.COM Disse:

    [...] cristalizou, não demorará muito!).  Eu mesmo estabeleci aqui neste blog (no dia 17/01/2007) uma modelagem apontando para a subida do preço do capital humano de TI (o exemplo era para o Brasil, mas vale [...]

  4. Cacthos Disse:

    Eu diria que falta, para essa base da pirâmide, espírito empreendedor mesmo trabalhando numa empresa, comprometimento, liderança, raça para encarar riscos. Hoje, com a proliferação de cursos, é muito fácil ser capacitar para ser um programador médio. Dificil é as empresas encontrarem gente disposta a encarar desafios, ser medo de errar, ou seja, pessoas com perfil de liderança, que possam ascender na pirâmide e “tomar de conta” dos programadores médios.
    Recentemente tive a oportunidade de palestrar em uma faculdade com curso de Sistemas de Informação, e pude passar exatamente essa visão para os futuros graduados: o mercado já tem muita gente para fazer serviços “comuns”, o que realmente precisamos agora é de líderes, pessoas que possam assumir uma equipe e tocar um projeto.

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